Sabrina Noivas 92 - Suddenly...Marriage!

Tudo no passava de 1 brincadeira? O solteiro milionrio Grant O'Hara achava que era 1 cerimnia de casamento de mentirinha, apenas mais 1 comemorao da tera-feira de carnaval. At que ele e Cheyenne Tarantino foram declarados legalmente casados. Grant no queria mudar de estado civil, mas 1 vez que nada poderia ser feito at o amanhecer, ele no via motivo para no aproveitar a lua-de-mel com sua bela e tmida noiva. Mas Cheyenne com certeza via. Havia muito tempo prometera guardar-se para a noite de npcias verdadeira. Porm o charme irresistvel de Grant a seduzia. E logo Cheyenne comeou a imaginar 1 maneira de transformar o casamento de 1 noite em 1 compromisso para sempre.

Digitalizao e Correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1999
Publicao original: 1998 . Estado da Obra: Corrigida
Gnero: Romance contemporneo

Srie Noivas Virgens (Virgin Brides)
Autor	Ttulo	Ebooks	Data
Palmer, Diana	The Princess Bride
Sab.Noivas 069 - H.Texas 17.1 - Tudo Por Um Beijo	Mar-1998

August, Elizabeth	The Bride's Second Thought
Sab.Noivas 090 - Razes Do Corao	Apr-1998

Broadrick, Annette	Unforgettable Bride
Sabrina 1044 - Um Amor Para Sempre	May-1998

Carey, Suzanne	Sweet Bride of Revenge
	Jun-1998

Steffen, Sandra	The Bounty Hunter's Bride
	Jul-1998

Ferrarella, Marie	Suddenly... Marriage
Sab.Noivas 092 - De Repente...Casados!	Aug-1998

Paige, Laurie	The Guardian's Bride
Sab.Noivas 100 - Planos Para Um Casamento	Sep-1998

Christenberry, Judy	The Nine-Month Bride
BD 724 - Aconteceu o Amor!	Oct-1998

James, Arlene	A Bride to Honor
Sab.Noivas 093 -Preldio de Amor	Nov-1998

Longford, Lindsay	A Kiss, a Kid and a Mistletoe Bride
Sab.Noivas 113 - Beijo Roubado	Dec-1998

Palmer, Diana	Callaghan's Bride
Julia 1129 -  H.Texas 19 - Irmos Hart 03 - As Estaes Do Amor	Mar-1999

James, Arlene	Glass Slipper Bride
	Jul-1999

Grace, Carol	Married to the Sheik
BD 726 - Casada Com Um Sheik	Sep-1999

Shields, Martha	The Princess and the Cowboy
Sab.Noivas 114 - A Princesa e o Caubi	Nov-1999

Bagwell, Stella	The Bridal Bargain
BD 741.1 - Selado Com Um Beijo	Jan-2000

Cassidy, Carla	Waiting for the Wedding
Sab.Noivas 110 - Meu Primeiro Amor	Feb-2000

Clayton, Donna	His Wild Young Bride
Sab.Noivas 117 - Corao Selvagem	Apr-2000

Colter, Cara	First Time, Forever
Julia PP 033 - Conto De Fada Existe	Aug-2000

Grace, Carol	Fit for a Sheik
Julia 1131 - Sob Medida Para o Sheik
	Feb-2001

Wallington, Vivienne	Claiming His Bride
Sab.Noivas 120 - Um Segredo Entre Ns	Apr-2001

Bright, Laurey	Marrying Marcus
Sab.Noivas 139 - Eu Sei Que Vou Te Amar	Dec-2001

Bright, Laurey	The Heiress Bride
Sab.Noivas 138 - Casamento de Princesa	Mar-2002

Smith, Karen Rose	The Marriage Clause
	May-2002



         

        

































CAPITULO UM

Grant O'Hara observou a aproximao da moa. Classe. Essa palavra a resumia. Classe. Ela movimentava-se pelo salo sem esforo, com segurana, como uma poesia. Cada passo flua do anterior e dava continuidade ao seguinte como uma sinfonia eterna com novo arranjo, excitando-o.
Estudou-a quando ela aproximou-se, curvando o lbio. Mais uma vez, Stan esquecera-se de avisar que a mulher enviada era um "avio". Stan Keler considerava tais detalhes irrelevantes, mais atento  reputao e ao currculo do que  aparncia exterior das pessoas. Pssimo hbito!
Segundo Stan, homens em sua idade j no reparavam em braos esguios e pele macia e perfeita. Ora, Stan era apenas cinco anos mais velho do que Grant, que, aos quarenta anos, sentia-se jovem demais para no notar a beleza. Ainda mais quando esta lhe era apresentada de forma to escultural, casual e inconsciente. A moa parecia no notar que todas as cabeas se voltaram para v-la entrar.
E talvez no houvesse notado mesmo.
Por ser quem era, por pertencer  famlia que pertencia, Grant estava acostumado a mulheres bonitas, mulheres que se achavam bonitas, a seu redor. Mesmo ao murmurar negativas ante um cumprimento galanteador, elas sempre tinham um certo brilho no olhar, denunciando que tinham passado horas diante do espelho, arrumando-se para alcanar aquela aparncia, aquela impresso. Cnscias do resultado, orgulhavam-se dele como felinas mimadas e astutas.
Mas o nico brilho no olhar de Cheyenne Tarantino era o da determinao, aliada  autoconfiana que lhe iluminava o semblante.
Sim, devia ser uma mulher autoconfiante, usando um nome daquele! Cheyenne Tarantino. S podia ser inventado. Ningum batizaria uma filha de Cheyenne, um nome de pousada e de personagens de filmes de bang-bang ocasionalmente reprisados na televiso, na esteira das ondas de nostalgia que iam e vinham a toda hora.
Quase rira ao ouvir o nome pela primeira vez. Devido  educao de bero e ao autocontrole, contivera-se. Mas no conseguia controlar o sorriso que ameaava se abrir naquele instante.
Grant levantou-se antes que ela chegasse  mesa, imaginando vagamente se ela se sentiria ofendida ou encantada com essa atitude. No lhe fazia diferena, sendo esse seu comportamento normal, mas estava curioso.
Ele era o que era. Grant orgulhava-se de sua educao e, se aquela atitude pertencia a outra gerao... bem, talvez fosse mesmo de outra poca. Cheyenne Tarantino devia ter uns vinte e poucos anos... vinte e tantos, levando-se em considerao sua reputao e proficincia. Estaria j na casa dos trinta s se tivesse sido abenoada com timos genes ou contasse com um afamado dermatologista para lhe recomendar cremes milagrosos.
E exerccios certos, acrescentou, silenciosamente, varrendo a figura com um olhar.
Ela trajava um conjunto cinza-azulado que lhe destacava os olhos e realava os longos cabelos loiros que se dispersavam em ondas sobre seus ombros. As peas bem cortadas salientavam cada curva de seu corpo conforme se deslocava.
Como uma gata, pensou. Uma gata esguia  caa da presa.
Ficou imaginando se era assim que ela o via. Como uma presa. Ideia interessante. Talvez a entrevista, agora que decidira-se finalmente a conced-la, no fosse ser to aborrecida quanto previra. Com certeza, no se tratava de algo que procuraria espontaneamente.
No, decidira Grant, no se sentia compelido a nada disso. Bem, faltava a moa abrir a boca, ou destampar a lente da cmera.
O pior podia estar bem  frente. O tempo iria revelar.
Ele exalava poder e confiana, constatou Cheyenne, apesar da distncia que os separava. Como se j no houvesse percebido a caracterstica nas fotografias que garimpara no arquivo de revistas. Grant O'Hara, terceiro filho dos O'Hara de Newport, imprimia uma aura de poder em torno de si.
Os olhos de Cheyenne, bem como a cmera inseparvel, no perdiam nada. Sangue azul, observou. Ele tinha sangue azul, com certeza. Era evidente at ao observador mais casual. Era um nobre at os botes dourados do terno azul-marinho.
E maravilhoso. Realmente maravilhoso.
Incrvel como Grant O'Hara era bonito! Algumas pessoas eram muito fotognicas, mas, pessoalmente, revelavam-se uma decepo. No era o caso dele. Se havia algo a acrescentar, era que nenhuma foto captara fielmente os belos traos daquele fidalgo.
Diante dele, viu-se sobrepujada pelo poder e pela aparncia, como numa sequncia de golpes de boxe. Uma combinao fatal.
A me de Cheyenne, quela altura, estaria implorando para parir os filhos do homem. Eis um fato da vida ao qual se acostumara, e aceitara, desde tenra idade. Anita Tarantino sempre se atraa por bonites. Pelos seus clculos, ela teria resistido aproximadamente trs segundos na companhia de O'Hara antes de capitular.
Mas Grant O'Hara devia consumir mulheres do tipo de Anita como aperitivo, censurou Cheyenne. Ele pertencia a uma classe totalmente diferente. No tinha nada a ver com a garonete de um restaurante em Cheyenne, Wyoming, ou com sua filha. Se bem que tudo isso era passado.
Foi muito gentil de sua parte encontrar-se comigo aqui
 comentou ele,  guisa de saudao, e chamou um garom, que puxou a cadeira para Cheyenne.
Antes de sentar-se, ela ps de lado a maleta com o material fotogrfico e a bolsa.
	Eu  que devia lhe agradecer  corrigiu ela, seu sorriso era uma cpia do que via no rosto aristocrtico.
Cheyenne aperfeioara-se em imitar os trejeitos das outras pessoas, parte de sua ttica para deixar o objeto da entrevista  vontade, gerando uma atmosfera de familiaridade.
Cruzou os dedos e pousou o queixo sobre eles. Grant O'Hara tinha olhos verdes, notou. Um verde muito intenso, como musgo sob a luz da manh. Ficou imaginando quantas mulheres ele conquistara com aquele leve sorriso no olhar. Como se as mas do rosto altas e a covinha em seu queixo no fossem suficientes...
No havia dvida. O homem era perfeito. E ela capturaria cada toque, cada nuance daquela sensualidade, em filme. E produziria uma bela reportagem a partir da entrevista que ele encaixara em sua agenda lotada. As leitoras da Style adorariam a matria. J os leitores provavelmente pendurariam a foto dele no alvo de dardos, ou o usariam como fonte de inspirao...
No que aquele O'Hara houvesse nascido pobre, lembrou-se, ainda encarando-o. Ele nascera em bero de ouro macio. Mas tudo o que tinha hoje, segundo as fofocas e Stan Keller, ele conseguira com esforo prprio, sem ajuda do pai, Shaun O!Hara, nem do dinheiro dele.
A luta tornara O'Hara um homem determinado. Talvez no to determinado quanto ela, mas, afinal, poucas pessoas eram. De qualquer forma, tratava-se de um homem admirvel.
Se a moa estava desconfortvel com aquele encontro, pensou Grant, no dava sinais. Gostava disso.
Ento, aqui estamos, resultado de um jogo de pquer.
Ela curvou levemente o lbio. Sabia do conceito que o fidalgo tinha das pessoas que tentavam obter uma entrevista com ele.
Por que no guarda o preconceito contra os da minha classe at terminarmos a entrevista?
Grant inclinou a cabea, aceitando a sugesto. Ela no prometia discrio, nem tampouco desprezo. Valorizava a honestidade nas pessoas. E no se deixava dominar.
Est bem, guardarei.  Ele olhou para a esquerda.
Atento, o garom providenciou dois cardpios com bordas douradas, um para cada um. Grant ignorou o dele. Muito ocupado, raramente almoava, a no ser para tratar de negcios e, mesmo nessas ocasies, concentrava-se no tpico a discutir e no no prato. J a reprter podia estar com fome...
	Belo truque  observou ela, referindo-se ao garom requisitado em momentos oportunos.
	No foi truque. Eu sou scio aqui. O pessoal gosta de me agradar.
Cheyenne ficou imaginando at que ponto poderia continuar naquela linha de avaliao.
O garom pousou dois clices grandes sobre a mesa.
Que tal um vinho?  ofereceu Grant.  Temos garrafas excelentes na adega.
Cheyenne balanou a cabea lentamente.
Agua mineral  solicitou.
Grant ergueu dois dedos ao garom, que desapareceu. No deixou de encar-la.
No bebe?
Ela deu de ombros.
No preciso.
Ele focalizou a taa de vinho vazio.
Nunca pensei numa taa de vinho como necessidade.
Cheyenne pensou na me e nas solues que ela tanto procurara e no encontrara no fundo da garrafa.
Tem sorte. Algumas pessoas pensam assim.
Ele avaliou-lhe o semblante, notando o maxilar levemente enrijecido. Algum prximo dela abusara do lcool.
Mas no voc.
Cheyenne cogitou quem entrevistava quem. Nada impedia que O'Hara lhe fizesse algumas perguntas, o que contribuiria para descontra-lo.
O lcool atrapalha.  Cheyenne pousou a mo na maleta com material fotogrfico.  Eu prezo muito o meu trabalho.
Ela acariciava o acessrio como se fosse o brao de um amante, numa atitude condizente com a paixo que mostrava pelo ofcio.
	Melhor para voc.
	E para Stan Keller  observou ela. Quando O'Hara ergueu uma sobrancelha, acrescentou:  Ele gosta do meu trabalho.
O garom reapareceu e pousou dois copos de gua mineral, levando embora as taas de vinho vazias.
	E eu gosto de Stan  esclareceu Grant.
	Presumo que sim. Deve ter sido por isso que concordou com esta entrevista.  Cheyenne sorriu ao lembrar-se da animao de Stan dois dias antes ao telefonar-lhe.
	Eu consegui!  gritara ele.  Peguei o cara com uma jogada estatisticamente impossvel. Ganhei numa aposta!  E rira com gosto do outro lado da linha.  Eu o adverti de que tinha sorte nas cartas...
S que nenhum dos dois tinha sorte no amor, ponderara Stan. A nica diferena era que Grant j experimentara de tudo e podia declarar falta de sorte na matria.
Grant encolheu os ombros evasivo.
Stan e eu fizemos a faculdade juntos.
Stan jamais mencionara onde conhecera O'Hara e Cheyenne nunca perguntara.
	Ele  mais velho do que voc  observou ela.
	Deseja alguma coisa?  Grant indicou o cardpio, ignorando o comentrio.
Cheyenne agitou a mo. Estava concentrada demais planejando a estratgia para se preocupar com o almoo.
No, obrigada.
Grant dispensou o garom e s ento retomou a questo anterior.
Stan perdeu cinco anos juntando dinheiro suficiente para estudar jornalismo.  Simpatizara instantaneamente com o colega de quarto.  Eu no tive essa vantagem...
Cheyenne tomou um gole de gua, recostou-se na cadeira e avaliou o homem sentado  sua frente. Estaria criando uma imagem de si para ela?
Interessante escolha de palavras. A maioria das pessoas pensaria nisso como uma desvantagem.
Grant vira quatro de seus meio-irmos tragados pelo lamaal que era o excesso de dinheiro. Jurara que isso jamais aconteceria consigo. E no acontecera. Gostava de acreditar que era to duro quanto o pai. S que muito menos rude.
Lutar para ter algo faz com que se aprecie a conquista muito mais.
Ele parecia sincero, mas podia tambm estar representando muito bem, empresrio experiente que era.
Embora fosse novata, Cheyenne tentou provoc-lo.
Ou assim ouviu dizer?
Grant no se ofendeu.
Quer saber se nunca tive que lutar por nada? A resposta  sim, tive.
Ela foi mais longe.
Com o suor do prprio rosto?
Cheyenne no conseguia imagin-lo suando, por mais criativa que fosse. Ele era suave e refinado demais. Era mais provvel descobrir-se colnia do que suor em sua testa.
Grant sorriu matreiro.
Eu transpiro, srta. Tarantino...
As palavras evocaram uma cena: a de Cheyenne com o corpo coberto por uma camada de suor, em vez de banhado pelo brilho artificial das luminrias?
Imaginei que pagasse algum para fazer isso em seu lugar.
Ela achava que ele tinha lacaios, pessoas pagas para fazer o trabalho por ele? Jamais sequer considerara tal possibilidade. Delegava responsabilidades s quando no tinha alternativa. Descobrira que no havia nada mais divertido do que estar na linha de frente, no comando de tudo, saber de cada detalhe das operaes.
Mas duvidava de que a reprter acreditasse.
H coisas que a gente tem que fazer sozinho. De outro modo, elas perdem o significado e o impacto...
Ele a fitava detidamente, notando os olhos azuis muito expressivos. E pensativos. Era como ser ntimo de um barmetro de sua alma.
Cheyenne sorveu um gole de gua. Ele no estava mais falando exclusivamente de trabalho.
Assim dizem  concedeu.  Pessoalmente, nunca tive a opo de pr algum para fazer o meu trabalho.
Grant gabava-se de conseguir interpretar as pessoas com relativa facilidade. Dificilmente se enganava. E no acreditava estar errado desta vez.
Talvez esteja enganado, mas acho que voc no permitiria que outro atuasse em seu lugar, mesmo que pudesse.
Cheyenne o encarou e esboou um sorriso. Era como ver o sol raiar no horizonte.
Tem razo.  Ela riu suave.  Eu no permitiria. Gosto de fazer tudo sozinha.  A fim de retornar s amenidades, enumerou:  Gosto de fazer os meus projetos de programao visual, de escolher minhas locaes, de tirar as fotografias pessoalmente...
Grant acertara quanto ao perfil independente da moa. E quando s demais caractersticas? Se removesse aquela distinta camada exterior da voluptuosa reprter, o que encontraria? Um iceberg? Ou um vulco?
Voc no trabalha com uma equipe?
Sendo Cheyenne uma editora snior, vrias vezes Stan oferecera-lhe uma equipe, mas ela nunca aceitara.
Sou uma solitria, sr. O'Hara. Trabalho melhor assim.
 Ela alargou o sorriso.  Sem uma equipe, no h ningum para me atrapalhar. Tambm no h a quem culpar, caso as coisas no dem certo.
A menos que ele se enganasse, ela no era do tipo que transferia os seus erros para os outros, mesmo que tivesse a populao inteira de Nova York a seu servio. Grant pousou a mo sobre a dela, descontrado.
Por favor, se vai ser a minha sombra amanh, me chame de Grant.
Sem se abalar e sem deixar de sorrir, Cheyenne retirou a mo.
timo. E sero dois dias, Grant.
Ele sabia disso, mas esperava que ela aceitasse um perodo mais curto.
Dois?
Ela no se deixou enganar com a falsa expresso inocente. Nem ele supunha que ela deveria se deixar enganar. Era educado demais para isso.
Foi o que combinou com Stan.
Fora um jogo de pquer amigvel, um dos poucos que permitira-se nos ltimos tempos. Na hora dos lances, Stan exigiu uma entrevista para a Style. No cogitara uma derrota at o amigo mostrar-lhe sua mo de cartas com chance estatstica mnima.
Lembre-me de jamais jogar pquer sem o meu talo de cheques...
Grant riu ento e Cheyenne, arrepiada com o som, desejou poder capturar aquele momento em pelcula. As vendas da revista disparariam.
Stan comentou que ganhou num jogo de pquer, mas eu custei a acreditar  comentou.  Voc no parece o tipo jogador...
Grant apreciava no ser um tipo facilmente classificado. Nada o irritava mais do que ser estereotipado. Supunha ser esse o motivo de ter concordado com a entrevista. Queria esclarecer alguns mal-entendidos.
Jogo s para relaxar.  Ele sorriu brilhante.  Exceto pelo ltimo jogo...
Cheyenne viu-se ofuscada. Devia ter levado os culos escuros.
Mas, agora que conheci a reprter de Stan, talvez mude de postura com relao a esta entrevista...
Cheyenne cogitou se O'Hara lhe fazia charme por algum motivo em particular. Se tentava faz-la desistir do trabalho, ficaria decepcionado. J ele no fugiria deliberadamente. Stan assegurara-lhe que CHara nunca voltava atrs em uma deciso.
Sou reprter da revista, no de Stan  observou ela.
Grant lembrou-se do brilho nos olhos do amigo ao falar de Cheyenne, ainda que no se referisse a seus atributos fsicos.
Do jeito que ele falou, pensei que pudesse haver algo...
 Grant deixou a frase se perder.
Cheyenne completou:
E h. Ele gosta do meu trabalho e eu respeito a perspiccia dele. Isso mantm nosso bom relacionamento.  A conversa estava ficando muito pessoal, mas Cheyenne tinha raciocnio rpido, alm de apreciar disputas verbais, e no ia recuar.
O que ela apreciaria num relacionamento?, raciocinou Grant. A sinceridade. Seria fogo dentro daqueles olhos azuis esfumados dela?
Cara srta. Tarantino, isso no d nem para se comear a ter um bom relacionamento. No um a nvel pessoal.
Mudar o rumo da conversa era uma das especialidades de Cheyenne. E chegara a hora. Passou a mo casualmente ao longo do pescoo.
Falando de relacionamentos, por que os seus nunca deram em casamento?
Touch, pensou ele.
 esse o tipo de pergunta que vai fazer?
Preparara outras piores, para usar, dependendo do rumo que a entrevista tomasse.
	Se a situao assim exigir.
	Olho por olho  concluiu Grant.
A citao bblica era um tanto austera, mas Cheyenne sorriu.
Algo assim. Vou entrar no campo pessoal se sentir que devo, dependendo dos sinais que voc emitir.  Era to honesta quanto achava que precisava ser.  Sou muito boa em captar sinais.
Em suas elogiadas entrevistas, Cheyenne transmitia muito mais pelas fotografias do que pela palavra escrita.
Tive a chance de apreciar trabalhos seus em outras revistas  comentou Grant, lisonjeiro.  E a exposio que fez em Newport.
Sua terra natal. Mesmo assim, ela se surpreendeu por saber que ele comparecera. Por um momento, o prazer suplantou o profissionalismo.
	Voc viu a exposio?
	Stan achou que eu devia. Para eliminar as dvidas e preocupaes que ainda poderia ter. Ele sabia que seria um fator decisivo.  E fora. Apesar de comprometido, Grant no receberia um reprter cujo trabalho no fosse honesto e sincero.
	Voc  muito eloquente com a cmera.
A sinceridade deixou-a perplexa.
Obrigada.  Ela desviou o olhar. Os olhos dele eram muito gentis, parecidos com sua prpria cmera. Perspicazes.
	s vezes, a cmera  mais esperta do que eu...
Modstia, mostrada de forma genuna, sempre era uma qualidade positiva, pensou Grant.
Duvido. Objetos inanimados so to bons quanto aqueles que os manuseiam.  Ele recostou-se e olhou-a longamente. Definitivamente, a entrevista prometia.  Quer comear agora?
Por algum motivo obscuro, Cheyenne desviou-se do propsito inicial.
Sim, mas no aqui.
Ele olhou ao redor, tentando ver o ambiente com os olhos dela. O que ela via que era imperceptvel a ele?
Por qu? Gastei um milho de dlares na reforma deste restaurante...  E com timos resultados, pois o local j se tornava sinnimo de refinamento em Nova Orleans.
Grant no parecia ofendido, mas tinha razo para contestar. Demonstraria tal atitude para com tudo o que possua? Sentia-se parte dos projetos que empreendia?
Ficou muito bonito  reconheceu Cheyenne.  Mas acredito que voc fotografaria melhor em outro cenrio, O que acha de comearmos pouco antes do anoitecer?  Os olhos dela brilharam de expectativa.  Talvez na avenida St. Charles... arriscou, citando uma das vias mais movimentadas naquele perodo.
Grant entusiasmou-se.
J esteve aqui antes.
Cheyenne assentiu. Nova Orleans fora o cenrio de sua primeira reportagem, a cobertura do funeral de uma grande figura do jazz. A cidade ganhara seu corao desde a primeira foto. Era um mundo completamente diferente do que conhecia, vivo mesmo na morte.
 o lugar mais colorido do pas  resumiu.
Grant concluiu que ela no o bajulava, mesmo sabendo que ele tinha uma casa no litoral.
Principalmente no carnaval  concordou.  Tudo bem, podemos comear esta noite.  Ento, incrdulo, balanou a cabea. Como pudera concordar? Era ocupado demais para isso. Mas promessa era promessa e aposta era aposta. Sempre honrava a palavra.  Notou a expresso interrogativa da reprter.
 Sabe, ainda no acredito que concordei com isso...
Nem Cheyenne acreditava. Fora mesmo um golpe de sorte.
Voc deixou Stan muito feliz.  Ergueu o copo de gua meio vazio para brindar ao acordo.  Sem arrependimento.
Aquilo, Grant podia brindar.
Sem arrependimento.
E garantiria que no houvesse... mesmo.

CAPITULO DOIS

Por sobre a borda do copo, Grant avaliou a mulher sentada a sua frente. Havia mais nela do que captara  primeira impresso. Uma certa vulnerabilidade no olhar. No se tratava de algo constante. Aparecia por um lapso entre duas batidas do corao e sumia novamente. Era como se aquela caracterstica surgisse apenas para despertar um sentimento de proteo no receptor. Teria ela cincia disso? Grant pousou o copo  frente.
J esteve em Nova Orleans durante o carnaval, srta. Tarantino?
Nunca na tera-feira de carnaval  esclareceu ela.
Cheyenne parecia pensar que, em Mardi Gras, o carnaval s se comemorava na ltima tera-feira. Os no-nativos cometiam esse equvoco. Embora morasse na Califrnia, Grant j estivera em Nova Orleans tantas vezes que j se considerava um nativo. Adorava o colorido e a alegria na cidade nessa poca do ano. Sentia-se vivo e, por algum tempo, deixava de lado as responsabilidades e divertia-se.
Durante o carnaval  corrigiu Grant, deslizando os dedos ao longo do copo alto.  Mardi Gras  o ltimo dia das festividades, uma dose exagerada de comemorao para aguentar os quarenta dias seguintes de penitncia e comedimento.  Encarou-a e sorriu ante a definio, encontrada no verbete de um livro de histria que fora obrigado a ler na juventude.  Ao menos, era assim. Atualmente, claro,  s uma desculpa para uma festa grande.
Grant entusiasmava-se com o tema. Gostava de introduzir os recm-chegados aos costumes locais. Adorava esta poca do ano, com sua insanidade energizada, to contrastante com os dias de trabalho. Era por isso que fazia questo de estar ali no carnaval, pelo menos no ltimo dia, no importava o quanto sua agenda estivesse cheia.
	O carnaval est relacionado aos onze dias de comemoraes. Na verdade, o processo todo comea em seis de janeiro.
Na dcima segunda noite...  Ele se deteve. No sabia como interpretar a expresso dela. As pessoas lhe eram agradveis todo o tempo, a fim de conquistar-lhe a simpatia. Mas Cheyenne no se enquadrava no tipo padro.  Voc est sorrindo. Eu disse algo que achou engraado? Se disse, gostaria de saber, assim talvez possa repetir a frmula de vez em quando.., desde que no seja  minha custa.
	No estou aqui para fazer uma reportagem sobre a tera-feira de carnaval, sr. O'Hara, mas sobre o senhor.  Ao v-lo alargar o sorriso, Cheyenne percebeu que no escolhera bem as palavras. Sem se abalar, acrescentou:  Em papel e pelcula.
Gostava dela, decidiu Grant. A moa podia se sustentar nos prprios ps ou, neste caso, na parte posterior muito bem definida.
Como queira  concedeu ele.
Se atentasse bem, detectaria apenas um mnimo de embarao sob aquele exterior impecvel. A moa no era to arredia e enfastiada quanto queria fazer crer. Estava curioso a respeito dela.
	S imaginei o quanto saberia sobre o nosso carnaval explicou Grant.
	Por qu?  Ela sempre suspeitava da motivao das pessoas, atenta e no controle de tudo. Por isso, estava sempre sozinha, mas tratava-se de uma consequncia com a qual tinha que conviver.  Estou escalada para uma grande excurso pela tera-feira de carnaval?
Grant pensou em fazer isso mesmo, aps comparecer a uma festa particular.
Acertou em cheio! Apesar da previso de uma tempestade forte, os desfiles vo acontecer o dia inteiro, um atrs do outro, mas o verdadeiro caos comea  noite...  Ele pronunciou a palavra "caos" com um sorriso, como algum que fala de uma tia querida, mas excntrica.  Stan alertou-a sobre os perigos?
Provavelmente no, adivinhou Grant. Duvidava de que Stan soubesse em que ms estavam, quanto mais que era carnaval em Nova Orleans. O homem tinha a capacidade de bloquear tudo, exceto o projeto em que estava trabalhando, o que, nos ltimos dez anos, fora a revista. Abrira mo at da vida pessoal.
Muito a exemplo de Grant. Ele, claro, tinha uma vida pessoal, superficial e satisfatria, que os outros homens deviam invejar. Mas aquilo no bastava. Esperava algo especial antes de chegar ao fim da linha, alm do cargo de presidente da O'Hara Communications.
Cheyenne olhou para ele, confusa. Do que estaria falando?
Perigos?!
Grant inclinou-se sobre a mesa pequena, criando um ar de intimidade que seus adversrios sempre tinham dificuldade em contornar ou imitar.
Os participantes dos carros alegricos e dos blocos carnavalescos jogam objetos para os espectadores... lembrancinhas. Se alguma cair perto de voc, no pegue.
Aquilo no fazia sentido.
	Por que no?
	Porque pode ter a mo pisoteada, quebrar os dedos, ou at perder um.  Qualquer veterano de carnaval podia reportar episdios de terror bem como de alegria.  Se atirarem algo em sua direo e voc o quiser, primeiro pise no objeto, espere o interesse das pessoas se esvair e s ento pegue-o para voc.
Certo, pensou Cheyenne, esportiva. Faria o jogo.
No vou perder um p?
Ela era naturalmente questionadora?, imaginou Grant.
No.
Ele parecia muito srio para estar brincando. Cheyenne comeou a acreditar nele.
	Exatamente como so essas bugigangas que vo estar jogando?
	Imitaes baratas de colares de prolas, medalhas, coisas coloridas  exemplificou Grant.
Cheyenne franziu o cenho.
No vale a pena perder um dedo por causa disso.
Ele concordava, mas as pessoas tinham seu lado incompreensvel. Relaxou os ombros sob o terno bem cortado. Nunca entendera o desejo por objetos to simples. Entretanto, presenciara cenas suficientes para atestar que o frenesi existia.
A multido fica excitada, disputando uma lembrana da ocasio para guardar e, depois, recordar o momento vivido.
O que seria preciso, pensou ele, para se conseguir o mesmo brilho de excitao no olhar dela?
Todos acabam querendo pegar um objeto.  Ele a encarou.  Mesmo as pessoas mais reservadas.
Eu no iria querer. Eu no vou querer  decidiu Cheyenne, mas afirmar em voz alta seria infantilidade. Alm disso, no se tratava de seus sentimentos ou pontos de vista. Tratava-se de O'Hara e do homem por trs da empresa, por trs da fortuna.
Todos gritam para os membros do bloco, tentando chamar a ateno, pedindo uma lembrana.  Ele riu baixinho, lembrando-se da mulher de olhar solene e beca preta que ensinara-lhe disciplina durante a infncia.  Eles adoram mulheres vestidas de freiras e costumam convidar as moas a tirar o suti em troca dos souvenirs.
Ele estava brincando, certo? Cheyenne imaginou carnavalescos carros alegricos cobrindo de jias mulheres fantasiadas de freiras. Quanto  ltima informao, sequer conseguia imaginar!
Est bem, ficarei alerta  concordou.  No vou tentar pegar nada, tenham atirado em minha direo ou no.
Grant assentiu.
Agora que j a alertei um pouco sobre o que vai acontecer, posso perguntar que fantasia escolheu?
Ele fazia mais perguntas do que ela. Tinha que inverter a situao.
No pensei numa fantasia  respondeu, franca. No lhe ocorrera. E, agora que a questo vinha  tona, classificou-a como frvola. Estava ali a trabalho, no por lazer.
Grant no podia crer que Cheyenne fora a Nova Orleans no ltimo dia de carnaval e no pensara numa fantasia.
Oh, mas voc precisa! Todo mundo vai fantasiado!
Por que no faz amor comigo, Cheyenne? Todo mundo faz Eu no sou como todo mundo, Jeff. No vou fazer amor com um homem at estar casada com ele. Se no pode respeitar tal deciso, deixe-me.
E ele se fora... levando junto seu corao.
De onde surgira tal lembrana?, repreendeu-se Cheyenne. No pensava em JefF Dolan havia anos. Deliberadamente, enterrara o episdio, junto com o livro de formatura, no fundo do armrio. Jeff fora seu primeiro amor, o primeiro homem a quem abrira o corao. Mas ele desejara permanecer na camada externa do corao... e invadir outras reas. Cheyenne aprumou-se.
Talvez queira me destacar por no usar fantasia.
Ela nunca teria problema em se destacar, julgou Grant. No com aquele rosto e com aquela presena. No com aquela voz que lembrava usque do bom sendo despejado sobre mel.
H hora para se destacar e hora para se misturar... em bora, deva dizer, voc se destacaria de qualquer modo.
Grant percebeu que a constrangia e recuou taticamente. O desconforto de outras pessoas s o incentivava nas negociaes profissionais. A nvel pessoal, considerava-o uma vantagem injusta.
Grant tirou um livrinho de capa preta de um bolso interno. O interesse imediato que surgiu no olhar dela no lhe passou despercebido. Ele anotou algumas palavras numa folha j parcialmente escrita.
Vou providenciar-lhe uma fantasia para esta noite.
Na opinio de Cheyenne, quanto mais cordas O'Hara colocasse ao seu redor, mais controle ele teria sobre o artigo final. O nico controle que apreciava em seu trabalho era aquele que ela mesma exercia. No entanto, j estava em dbito para com ele. Sendo impossvel encontrar uma vaga na cidade durante o carnaval, tivera que aceitar uma das duas sutes que Grant O'Hara mantinha reservadas no Hotel Majesty para o caso de querer passar o feriado ali mesmo, em vez de ir para sua ilha particular.
No precisa...  comeou ela a recusar.
Grant a interrompeu:
Claro que precisa.  tarde demais para se alugar uma roupa, decente ou no, nesta cidade. Tudo, incluindo os lenis, j foram reservados  afirmou, com um sorriso.
Cheyenne identificou a contradio.
Ento, como voc...
Ela estava tentando faz-lo tropear, percebeu ele, divertido.
Eu tenho contatos, srta. Tarantino.  E deixou a questo no ar, de propsito. Quanto maior o mistrio ao redor de um homem, maior o seu poder. O pai ensinara-lhe isso. Uma das poucas coisas que Shaun O'Hara dera de si mesmo, alm do dinheiro e do nome.  Contatos... em todo o lugar...  uma das vantagens que tenho por ser filho de Shaun O'Hara.
Finalmente, um tema de interesse. Mas ela tentou no parecer pronta a se atirar a qualquer coisa que ele dissesse.
	E as desvantagens?
	Esse deve ser o ponto crucial da conversa de hoje  noite.
	Grant sorriu. Deu uma olhada no relgio de pulso e levantou-se.
	Tenho uma reunio, mas estarei disponvel esta noite, conforme o prometido.  Pela primeira vez, desde que perdera a aposta para Stan, comeava a ansiar pela entrevista.  Posso comparecer a sua sute, digamos... s seis horas?
Aquilo seria a ltima coisa com a qual Cheyenne concordaria. Ela no tinha a menor inteno de se ver num ambiente ntimo com Grant O'Hara.
No, acho melhor nos encontrarmos na avenida St. Charles, conforme o combinado. Que tal na esquina da St. Charles com a Lafayette, na calada?
Uma mulher que no queria se ver sozinha com ele. Eis algo inusitado!
	Eu no mordo, srta, Tarantino.
	Mas eu, sim.  A declarao deveria ser um alerta, mas ela viu que ele no interpretara dessa forma.
	Estou ansioso por isso, senhorita...  Grant deteve-se e balanou a cabea.  Oua, no aprecio formalidades... Qual  o seu nome?
Ela j dissera. Obviamente, a memria dele no era to boa.
Cheyenne.
Grant balanou a cabea.
	Eu quero dizer, o seu nome de verdade, o que est em sua certido de nascimento.
	Cheyenne  repetiu ela, com um pouco mais de determinao. E sorriu, concluindo que no havia mal em fazer um pouco de charme.  Meus pais se conheceram num ponto de nibus em Cheyenne, Wyoming.  No havia necessidade de acrescentar que haviam partido dali juntos, poucos dias depois.
	Minha me era extravagante.
Na opinio dele, havia outros termos para classificar pessoas que batizavam os filhos com nomes excntricos. Mesmo assim, era um nome nico. Quase to nico quanto a mulher em si.
	Obviamente  concedeu.  Tudo bem, Cheyenne, nos vemos esta noite s seis.
	Espere...  chamou ela, antes que ele deixasse o restaurante e entrasse na limusine branca que o aguardava.  Como vou reconhec-lo?
Ele ergueu uma sobrancelha, divertido.
Pensei que fosse uma boa jornalista.  Grant imaginara v-la enfurecida e ficou satisfeito ao ver que ela no aceitara a provocao. Gostava de pessoas confiantes.  Alm disso, eu conheo voc.
Assim, ela ficava numa situao muito frgil. Cheyenne Ta-rantino gostava de ter tudo esquematizado.
Se descumprir a palavra, eu irei atrs de voc.
Oh, iria, sim, pensou Grant.
Eu gostaria disso tambm, mas no falto com minha palavra.  Amenizou o sorriso ao acrescentar:  Se fez a lio de casa, saberia disso.
Ele a atingira em um assunto importante e ela rebateu:
Eu fiz a lio de casa, s no acreditei no que aprendi.  Estreitou o olhar de leve quando sua mente se encheu de lembranas da me contando sonhos que nunca se tornavam realidade.  Homens faltam com a palavra.  um fato da vida.
Talvez ele a tivesse julgado mal. Havia poucas coisas que o desgostavam tanto quanto mostras de teorias pr-concebidas.
	O que foi isso? Crdito de Feminismo 101?
	Vida 101  corrigiu ela.
Com isso, Cheyenne o ultrapassou e saiu  calada.
	Posso oferecer-lhe uma carona?  indagou Grant.
	Pode oferecer, mas eu vou sozinha, obrigada  respondeu ela, no mesmo tom apressado.
Grant instalou-se na imusine e observou-a afastando-se. Aquela seria a Mardi Gras mais interessante de sua vida, concluiu.
Cheyenne franziu o cenho ao estender o vestido em estilo grego contra a janela. A luz transpassava o tecido como se no houvesse nada.
E isto vai sobre o qu?  indagou ao homem parado a sua frente.
Fiel  palavra, O'Hara mandara algum  sua sute logo aps o encontro no restaurante. O homem, que apresentou-se apenas como Pierre, entrou com um cabideiro sobre rodinhas e recusou-se a ir embora enquanto ela no escolhesse uma fantasia. Pierre estreitou o olhar e ela soube, por antecipao, que a resposta era bvia.
	A senhorita.
	O'Hara no lhe disse para trazer algo que no fosse transparente?
	O sr. O'Hara no escolheu esses trajes. Eu mesmo fiz a seleo  informou-a, ressentido.  Ele meramente instruiu-me sobre o seu tamanho.
	Meu tamanho?  Ela estreitou o olhar.  Como ele pode saber?
	O sr. O'Hara tem um bom olho para esse tipo de coisa.
 O homem apresentou-lhe outra fantasia, chamada Rainha da Neve, com aplicaes estrategicamente colocadas no corpete transparente.  Algum com a sua proporo no devia tentar esconder seus melhores atributos... afinal, isso no dura para sempre  comentou, cido.
Cheyenne devolveu a fantasia ao cabideiro.
Os meus melhores atributos so os meus olhos e o meu raciocnio  declarou Cheyenne.  E eles vo durar muito mais do que o sr. O'Hara e esta noite.
Pierre soltou um longo suspiro.
Est bem, ele at fez uma sugesto, caso fosse mais romntica do que lhe pareceu.
Ela no tinha certeza do que Pierre queria dizer com aquilo, mas deixou passar. No tinha mais muito tempo.
Qualquer coisa  melhor do que celofane e flocos de neve.
Com um floreio, Pierre separou um vestido longo verde-escuro. Tinha mangas compridas, detalhes dourados sobre os ombros e um chapeuzinho divertido que, segundo ele, devia ser usado de lado.
Pierre estendeu o traje contra ela e ergueu uma sobrancelha.
Cheyenne passou a mo sobre o tecido. Veludo. Suscitava-lhe uma lembrana que no conseguia definir.
Parece familiar...
Bem, ao menos, ela no era totalmente insensvel.
	 o vestido que Scarlett O'Hara usava quando foi implorar dinheiro a Rett Butler  resumiu Pierre.  Foi feito com...
	Uma cortina.  Cheyenne assentiu, intrigada, embora se esforasse para no demonstrar.  Sim, eu vi o filme.  Cinco vezes, mas ningum precisava saber disso. Tomou o vestido das mos de Pierre e colocou-o sobre o corpo. Sem perceber, sorriu diante do espelho.  Bem, se tenho que vestir alguma coisa, acho que isto vai servir...
Deixou a fantasia sobre a cama. Lanou um olhar reprovador a Pierre quando ele apressou-se para ajeitar a saia para que no amarrotasse.
O que o sr. O'Hara vai vestir?
Pierre sorriu e continuou obsessivamente ajeitando as pregas.
No tenho autorizao para falar.
Suspirando, Cheyenne pegou a bolsa que estava no aparador e tirou a carteira.
Vinte dlares traria autorizao?
Endireitando-se, Pierre revirou os olhos e encarou-a, a expresso condoda.
Por favor. Vinte dlares no do nem para um txi esta noite.
Cheyenne estava mesmo sem sorte. Mas no pretendia desembolsar mais em suborno. Conforme o prprio cavalheiro observara, ela era uma jornalista. Encontraria O'Hara.
	Nesse caso, terei que me valer dos meus instintos.
Pierre no parecia ofendido, mas divertido.
	Faa isso.
No estava correndo tudo to bem quanto esperava, pensou Cheyenne, esforando-se para manter a irritao sob controle. E era tudo culpa daquele vestido maldito.
Ela ergueu a saia para a frente a fim de facilitar os passos, pelo menos por algum tempo. O entardecer estava at bastante fresco, mas, mesmo assim, o vestido parecia pesar uma tonelada, e movimentar-se com ele fazia-a transpirar. Comeava a arrepender-se da escolha. Com o vestido grego estaria se deslocando com mais facilidade.
Provavelmente, teria que me movimentar muito se quisesse manter o respeito e outras coisas intactas  murmurou para si mesma.
Fazia menos de meia hora que caminhava pelas ruas quando constatou que os alertas sobre os perigos do carnaval no tinham sido exagerados. Na verdade, tinham sido at amenos.
Para sua surpresa, Stan telefonara-lhe pouco antes de ela sair do hotel para reforar o que CHara j tinha dito: seja cautelosa.
Tudo pode acontecer, Cheyenne  comentou Stan, em seu tom montono.  Tome cuidado. No  o tipo de festa a que est acostumada...
Cheyenne pensou em alguns dos frequentadores do restaurante de beira de estrada no qual crescera a lhe fazerem insinuaes antes mesmo que chegasse  puberdade. Aprendera desde cedo a se precaver, graas  benevolncia de um cozinheiro que se preocupara com sua segurana mais do que sua prpria me. Sabia se proteger, sabia como identificar as intenes de um homem s pelo olhar, graas a Miguel. Ele, que s estudara at a oitava srie, fora seu professor e seu amigo quando ela mais precisara de algum.
	Ficaria surpreso em saber a que estou acostumada, Stan contara Cheyenne.  Mas obrigada pela preocupao.  Durante a conversa telefnica, prendia o chapu com grampos de forma a ficar bastante inclinado.  Na verdade, estava mais preocupada com o seu amigo do que com a multido...
	Grant?  O tom indiferente de Stan ganhou um toque de descrdito.  A reputao dele  de um cavalheiro, no de um mulherengo.
Cheyenne no via diferena entre os termos. - D no mesmo.
Pela primeira vez desde que ela se lembrava, Stan pareceu ficar ofendido.
Ento, precisa de um dicionrio melhor. O cavalheiro gosta da companhia das mulheres, enquanto que o mulherengo as usa para o prprio prazer. Se conheceu O'Hara, sabe a diferena.
Talvez sim, talvez no, pensou Cheyenne, e pegou a pequena bolsa tipo saquinho que acompanhava a fantasia.
Lamento, no pretendo ficar tanto tempo por aqui.  Verificou o equipamento pela quarta vez. Levava tanto a cmera tradicional quanto a digital.  Apenas o suficiente para fazer da Style a revista mais vendida do ano com esta reportagem...
	Cheyenne, agarre-se  sua cmera e sua carteira quando sair!  advertiu Stan.  Dizem que os ladres e trombadinhas fazem metade de seu faturamento anual nessa noite.
	Obrigada, isso me deixa muito segura  ironizou ela.
 Estou comeando a achar que deveria estar vestida de touro, em vez de cadela de luxo.
	Ele a mandou se fantasiar de cadela?  perguntou Stan, incrdulo.
	No, estou de Scarlett O'Hara.  Ela fez uma pausa e, ento, especulou:  Fico pensando se h algum tipo de ligao entre os nomes...  Mas era bvio que Stan no entendera a colocao.
Agora, avanando com dificuldade em meio  multido, desejava seriamente perder o vestido, ou, pelo menos, a saia. Embora tivesse ficado bem ao olhar-se no espelho, era terrvel andar com aqueles panos volumosos.
Logo descobriu que a Mardi Gras implicava cair de cabea num caleidoscpio. Nada do que poderia ter lido ou visto a prepararia para aquilo, pensou. Era como se todos os folies acreditassem ter carta branca para deixar de lado suas inibies naquela noite ousada e clere. Obviamente, queriam aproveit-la ao mximo!
Se puder manter a cabea enquanto todos os outros perdem as deles...  recitou o fragmento de um poema de Kipling para si mesma enquanto fotografava as ruas, capturando, preservando imagens. Era informao demais acontecendo, mas tentava registrar ao mximo. O que no via, a cmera captava.
Desfiles tomavam as ruas principais, s vezes com pouqussimo intervalo um e outro. Inundando as vias por quilmetros, baderneiros incitavam os carnavalescos nos carros alegricos.
Muito barulho e lembrancinhas cortavam o ar. Cheyenne tentou absorver a energia de um e evitar as outras.
Um homem gordo passou por ela tentando apossar-se de um colar de prolas que fora atirado de uma carro caracterizado como a barca de Clepatra.
Cheyenne pulou de lado bem a tempo.
Abandono era a palavra de ordem.
Quando Cheyenne ergueu a cmera novamente, um palhao materializou-se a sua frente como se quisesse ser fotografado.
Ela bateu a chapa. Com um pouco de sorte, poderia haver ali material para trabalhar numa matria futura, talvez sobre a necessidade de as pessoas soltarem suas inibies periodicamente.
Um Hrcules mascarado tentou coloc-la de lado. Ela o cutucou com o cotovelo e ele se afastou rapidamente.
Apesar dos obstculos, Cheyenne logo alcanou a avenida St. Charles. Estava adiantada para o encontro com 0'Hara. Se ele aparecesse, ela o identificaria. Se bem que a possibilidade de ele no comparecer ainda era muito real para ela, apesar das afirmaes de Stan em contrrio. Odiava a ideia de ter que ir atrs dele vestida daquele jeito.
Algum na alegoria seguinte lanava pombos em vez de bugigangas.
 Era exatamente do que a cidade precisava, mais pombos  resmungou ela. Mas disparou o obturador da cmera no momento exato em que mais trs pssaros eram soltos. Gostava do que via em seu arquivo.
Nova Orleans era um mundo de cores e sons abrigados sedutoramente sob o manto noturno. Cheyenne trocou de cmera para no ter que instalar um novo filme ainda e continuou fotografando tudo o que se movia. Selecionaria os melhores instantneos mais tarde. Naquele momento, a rapidez era essencial.
Por isso, apontar e disparar era mais importante do que enquadrar. Cheyenne no tinha conscincia do que fotografava a no ser momentos depois, quando as imagens se imprimiam em seu crebro.
Os diabos vermelhos no beco no estavam apenas fingindo atormentar outro folio. Havia algo esparramando-se sobre o cho ao lado do pirata cado. Uma poa que se alargava, escura e densa...
Sangue?
A mscara de um dos diabos caiu e ele olhou para a cmera exatamente no momento em que ela baixava o instrumento. Apesar da boa distncia, ela sentiu seus olhares se encontrando. Ento, os demais fantasiados tambm olharam em sua direo, prontos a persegui-la.
Outro diabo ficou sem mscara e Cheyenne o fotografou, antes de fugir correndo.

CAPITULO TRS

	Rhett Butler, certo?
 voz sussurrada junto a seu ouvido tinha mais do que um leve sotaque sulino embutido. Grant olhou para a mulher ao lado. Surpreso, notou que ela estava descala, com tornozeleiras de flores. A coroa sobre o cabelo ruivo contrastava com a fantasia de pedinte. A mscara s cobria a rea dos olhos. O convite era escandaloso.
Em outra situao, pensou Grant, talvez ficasse tentado a levar a moa a um local mais apropriado e responder profundamente a sua pergunta, mas agora tinha uma dvida a pagar.
Por isso, sorriu para a mulher e, tirando o amplo chapu de panam, declarou:
Certo, e estou esperando Scarlett.
A mulher ergueu a cabea e lanou a massa de cabelos para trs, olhando-o sedutoramente.
Aposto que a sua Scarlett no  metade da mulher que eu sou.
Grant riu suave. Fisicamente, a pedinte podia at ser mais generosa que Cheyenne, mas havia mais a considerar alm de curvas agradveis, seios fartos e uma atitude ansiosa. Sempre interessara-se mais pelo contedo das pessoas...
Ainda teremos que verificar isso  especulou ele.
A mulher protestou, mas Grant j no a ouvia. Cheyenne corria em sua direo... ou melhor, tentava correr na medida em que a multido permitia. Como a pedinte oferecida, ela usava uma mscara pequena que mal lhe disfarava as feies. Alm disso, Pierre contara-lhe que fantasia ela escolhera, e era por isso que estava vestido de Rhett Butler. Uma vez que concordara com a entrevista, pretendia divertir-se ao mximo.
Cheyenne obviamente estava ansiosa para comear, pensou, vendo-a atravessar a multido com a determinao de um soldado. Talvez um pouco ansiosa demais, observou. Mesmo a distncia, via que ela estava ofegante. Duvidava de que j estivesse excitada  perspectiva da noite que se seguiria.
Pena que ela e a mulher da qual tentava se desvencilhar delicadamente no pudessem trocar seus objetivos para a noite, pensou. Se visse em Cheyenne o mesmo brilho no olhar da pedinte, ficaria tentado a esquecer a entrevista, porque a Mardi Gras e o grande baile o aguardavam!
Bolas, seria capaz de esquecer a entrevista  mnima provocao, divertiu-se. Com muito menos incentivo, tentaria ganhar uma noite romntica com Cheyenne. A moa devia ter mais habilidades do que a que demonstrava com a cmera fotogrfica...
Cheyenne olhou ao redor, tentando abrir a maior distncia possvel entre si e os quatro diabos em seu encalo. As ruas estavam cheias e parecia fcil perder-se na multido. Mas no se esconderia antes de se afastar pelo menos o dobro da distncia dos homens que a perseguiam. Dessa forma, faria a confuso trabalhar para si ao invs de contra, como acontecia naquele momento.
Rostos, mscaras e fantasias se aglutinavam  beira do desfile em andamento. Onde estaria Grant?, imaginou, sentindo o desespero crescer. Como poderia encontr-lo naquela mar revoltoso de gente se nem ao menos sabia como ele estava fantasiado?
Nunca imaginara que encontraria tanta gente na rua! Soltou um suspiro de frustrao enquanto reposicionava o chapu. Apesar das coordenadas precisas para o local de encontro, era como procurar uma lente de contato perdida. No que O'Hara fosse um tipo comum. O problema era que metade dos carnavalescos usava mscaras. Em alguns casos, no se sabia sequer se tratava-se de homem ou mulher.
Cheyenne tentou se acalmar para pensar racionalmente. De algum modo, no conseguia imaginar O'Hara optando por uma fantasia de gorila ou palhao. Ele escolheria algo mais dinmico, romntico e distinto. Definitivamente, algo que destacasse suas qualidades. Ele tinha um belo rosto, anguloso, que lhe dava um ar aristocrtico, e no desperdiaria essa ddiva atrs de uma mscara.
Mas o local estava entulhado demais para que pudesse localiz-lo. Ento, quando viu o homem fardado poucos passos  frente, desistiu de procurar O'Hara. Um policial atenderia muito melhor s suas necessidades naquele momento. Estava certa de conseguir conduzi-lo de volta ao beco onde jazia uma pessoa, apesar de todas as esquinas e passagens que tomara para despistar os homens que a perseguiam.
Movimentando-se o mais rpido possvel, afastou vrios folies a cotoveladas at chegar ao policial. Agarrou-lhe o brao, desviando sua ateno da alegoria.
Senhor, eu acabo de presenciar...
Cheyenne calou-se quando o homem a encarou, o rosto todo pintado. No se tratava de um policial, mas de algum fantasiado de policial. Um policial-palhao, para ser precisa.
Desculpe-me  murmurou, e largou-o.
Ao voltar-se, era toda decepo. Raios, ningum era o que parecia ser naquela cidade maluca? Por que os policiais no estavam  vista?
Mas os folies tinham outras ideias...
	Ei, espere um pouco  chamou o tal fantasiado de policial, bloqueando-lhe o caminho.  Talvez ns possamos nos interrogar...  sugeriu, erguendo as sobrancelhas de maneira cmica.
	Talvez em outra hora - desconversou Cheyenne. Precisava encontrar um policial... ou O'Hara. Naquele momento, no importava qual dos dois poderia ajud-la. S queria algum com quem partilhar seu problema.
Cheyenne olhou por sobre o ombro. Os homens fantasiados de diabo aproximavam-se. No a haviam localizando ainda, mas era evidente que estavam a sua procura. Instintivamente, escondeu a cmera, chamando a ateno do policial-palhao, que alargou o sorriso cmico.
E voc at tem uma cmera! Muito conveniente...  Ele passou o brao por sobre o ombro dela.  Podemos tirar fotos um do outro quando acabarmos. Ou, talvez, at mesmo quando estivermos em ao...
Cheyenne desvencilhou-se.
J acabamos  declarou, severa.
Sem se deixar abalar, o folio continuou avanando.
Ah, no faa assim, doura... Eu tenho algemas.  Ele mostrou-as e ficou girando os anis de ao no ar, o olhar denunciava claramente as intenes.
	Ento, use-as em si mesmo  sugeriu Cheyenne, voltando-se.
Teve o caminho bloqueado por um Papai Noel baixo e gordo. O policial-palhao puxou-a de frente para si novamente.
	Eu prefiro us-las em voc.
Cheyenne quase chorou de alvio ao ver Grant atrs do folio inoportuno. Ele pousou a mo pesada no ombro do sujeito e voltou-o  fora.
A moa disse no.
O homem fantasiado deixou de sorrir. Submisso, ergueu as mos, indicando que pararia por ali.
Tudo bem. Tem muitas moas ansiosas por diverso por a. No preciso disputar esta.  Afastou-se e rapidamente misturou-se  multido.
Satisfeito por ver que o folio no voltaria, Grant voltou-se para Cheyenne. Ela estava um pouco ruborizada, pensou. Mas muito bonita. Curvando-se  moda antiga, sorriu-lhe.
Scarlett O'Hara, suponho.
Cheyenne no respondeu. Ao esquadrinhar a multido por sobre o ombros mais uma vez, viu os quatro diabos se aproximando. Eles j a haviam localizado na companhia de Grant e seguiam em sua direo. Tinham que fugir dali!
Agarrou a mo de Grant e comeou a abrir caminho entre a multido, cada vez mais cerrada. Era cada vez mais difcil locomover-se.
Como era possvel, pensou, irritada, que todos quisessem ir para a direo oposta? Confuso, Grant deixou-se levar.
No que eu no goste de surpresas...  comentou, curvando-se junto ao ouvido dela.  Mas importa-se em me dizer para onde estamos indo?
Puxando-o pela rua, quase no caminho de outro carro alegrico, Cheyenne nem se voltou para dar-lhe uma satisfao. Estava com medo de parar de andar, com medo de permitir que os diabos se aproximassem.
Apenas siga-me  urgiu.  Explico tudo mais tarde.
A urgncia na voz dela informou-o de que ela no estava no mesmo esprito da cidade, muito menos sendo recatada. Definitivamente, havia algo errado.
	Voc est bem?
	Mais tarde  insistiu ela.
Grant no sabia o que estava acontecendo e no gostava da situao. Havia algum problema, mas Cheyenne no o revelava. Ela parecia disposta a arrast-lo pela cidade toda sem lhe dizer nada.
Definitivamente, no eram esses os seus planos. Pensando num local mais reservado, deteve Cheyenne pelo brao. Estavam diante de um prdio trreo com as portas abertas e o interior bem iluminado. Ela tentou retomar o passo, mas ele a impediu, decretando:
Vai me explicar agora o que est acontecendo.
Cheyenne no estava acostumada a receber ordens. Seu primeiro instinto foi de se desvencilhar e deix-lo ali, caso ele no tivesse o bom senso de segui-la. Mas ento raciocinou. Grant s a acompanharia se soubesse por que estavam fugindo.
Na necessidade de explicar a situao o mais rpido possvel, respirou fundo e comeou:
Acho que presenciei um assassinato.
Ele quase riu. Ento, conteve-se. Ela parecia falar srio.
Voc deve ter visto um grupo encenando algum quadro teatral  assegurou-lhe, tranquilo.  Ocorrem vrios eventos desse tipo no carnaval...
Mas Cheyenne balanou a cabea, convencida do que vira.
No eram atores, nem artistas de pantomima. Estou dizendo que os vi matando algum.  Ergueu a cmera.  E registrei tudo em fotos. Um deles me viu e agora esto todos atrs de mim. Quatro diabos.  Ora, falava como uma luntica.  Quatro homens fantasiados de diabo  consertou.  Eu vi um dos rostos.
Ela estava com medo e Grant tomou-lhe a mo.
Entendo...
Cheyenne retirou a mo, recusando-se a ser acalmada ou tratada com condescendncia.
Olhe para mim  insistiu.  Pareo algum que estava correndo de artistas de pantomima?
Grant avaliou-a detidamente.
	No, no parece.  E no parecia do tipo que ficava histrica ou assustada com facilidade. Talvez houvesse testemunhado algo.  Est bem  concedeu.  Se o que diz 
verdade, ento, talvez devssemos...  Viu-a empalidecer ao ver algo por sobre seu ombro.  O que foi?
	Oh, eles esto chegando!  No havia mais tempo para fugirem. Os diabos estavam perto demais. A qualquer instante, um ou outro dos perseguidores iria avist-la.  Rpido, por aqui.  Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, empurrou-o para dentro do prdio.
Assim como nas ruas, o salo estava repleto de pessoas. Ou melhor, pares de pessoas. Em bancos semelhantes aos de uma igreja, casais de mos dadas olhavam para o homem de p atrs do altar que parecia ter sido construdo especialmente para a ocasio. Flores naturais e pombinhos artificiais enfeitavam o cenrio.
Acima do som das vozes, ouviram-se os acordes de uma msica conhecida. A Marcha Nupcial iniciava-se pomposa.
Cheyenne analisou o cenrio. A maioria dos casais envergava fantasias combinadas, alguns at de noiva e smoking. Poucos usavam roupas comuns.
Jornalista antes de mais nada, ela deixou o medo de lado, ergueu a cmera e disparou algumas fotos. Um casal prximo posou, satisfeito por ter o momento preservado.
At pouco antes, Cheyenne lhe parecera quase aterrorizada, pensou Grant, mas agora ela era toda reprter, registrando os fatos com profissionalismo. Definitivamente, no era uma mulher comum.
Sempre tira fotos de tudo o que v?  perguntou Grant, sussurrando junto a seu ouvido.
Ela esforou-se para bloquear a excitao que lhe percorreu a espinha.
Fica mais fcil lembrar dos acontecimentos...
Cheyenne apontou a objetiva para a frente e tirou algumas fotos do homem franzino que encarava os casais, com sorriso benevolente e estranhamente apaziguador. Ele vestia uma batina branca engomada que combinava com seu cabelo. A nica cor evidente estava em suas mos: pedras preciosas enormes captavam a luz das velas por trs dele, refletindo-a sobre os rostos prximos.
Cheyenne baixou a cmera.
Que lugar  este?  indagou a Grant.
Ele encolheu os ombros. Olhando para trs, viu um homem alto fantasiado de diabo entrar apressado no local. A expresso do sujeito era to malevolente quanto a do homem no altar era benevolente. Sentiu um arrepio na espinha.
Talvez Cheyenne houvesse presenciado um assassinato.
Pousou o brao nos ombros dela. Quando ela o encarou, surpresa, meramente indicou-lhe que ela se afastasse da porta e se aglutinasse  multido.
Eles esto a fora  sussurrou Grant, e viu o pnico em seu olhar. Abraou-a.
Um homem baixo, quase invisvel em meio  multido, chegou at Cheyenne e passou-lhe um buque de flores.
	 a ltima  anunciou. O sorriso revelava uma falha na arcada.  Deve ser seu dia de sorte.
	Deve ser  concordou ela e lanou o olhar para a porta, rezando para que o homem estivesse certo.
Grant quase conseguia sentir os nervos se retesando ao longo das costas dela. Ele mesmo jamais experimentara o medo, a no ser o do fracasso, que s servira para anim-lo ainda mais. Sentiu aumentar o desejo de proteg-la. Devia ser a fantasia, divertiu-se.
Baixou a cabea e sussurrou-lhe ao ouvido:
Fique olhando para a frente e finja participar deste evento.
O salo est repleto de casais.  Indicou as pessoas nas trs fileiras de bancos.  Tem at outro par de Scarlett e Rhett...
A outra Scarlett era morena, observou Cheyenne, mas trajava um vestido idntico ao seu, verde-escuro. Se os perseguidores vissem o outro casal primeiro, ela e Grant teriam tempo para fugir.
Cheyenne assentiu, mas viu-se intrigada com o homem que lhe entregara o buque e que parecia trabalhar em parceria com o outro atrs do altar.
O que est acontecendo aqui?  perguntou, antes que ele sumisse na multido.
O homem, que parecia um duende crescido, franziu o cenho, como se estranhasse a pergunta. Gesticulou para mostrar o salo e ento para o homem no altar.
	Ora, vocs esto se casando, claro  informou, e apressou-se na direo do mestre.
	Claro  resmungou Cheyenne, trocando olhares com Grant. Era ele que tinha contatos por ali e, portanto, deveria saber.  Mais encenao?
	 o que est parecendo...
Grant voltou-se para o homem com expresso de anjo que conduzia a cerimnia. A Mardi Gras tinha tantos "programas" que nem os cinco comits organizadores podiam estar a par de tudo. No tinha a menor ideia do que se passava.
A encenao da cerimnia ia comear, concluiu Cheyenne, sem saber o que fazer. Chegou a erguer a cmera, mas ento, para permanecer incgnita, decidiu esquecer o equipamento.
O homem no altar gesticulava para que as pessoas se aproximassem. Parecia fisicamente impossvel, mas, como uma onda, a multido apinhou-se ainda mais.
	Isso  que  proximidade  sussurrou Grant.
Bem, pelo menos um dos dois estava se divertindo, conformou-se Cheyenne, tentando no se impressionar com a presso do corpo dele contra o seu... nem reagir ao estmulo.
	Agora, se os cavalheiros puderem repetir depois de mim  instruiu o homem no altar.  Eu... digam os seus nomes  conduziu ele. Um murmrio confuso veio da multido.  Oh, mais alto, agora, por favor, como se estivessem orgulhosos desse momento. Novamente. Eu...  recomeou o ministro folio.
Encolhendo os ombros, Grant juntou-se aos demais e repetiu as palavras do mestre de cerimnias.
s vezes, nos sonhos, Grant via-se dizendo essas mesmas palavras diante de uma mulher que, no fundo do corao, sabia que era aquela a quem estava procurando, mas cujo rosto nunca conseguia ver. O nico fato relevante era o sentimento. Um sentimento de que aquilo era o certo. De que ela era a mulher certa. Certa para ele.
Sempre que despertava do sonho, havia aquela sensao de perda, de aflio. Uma sensao de que algo precioso escapava-lhe pelos dedos. Sempre desfazia-se da sensao em poucos minutos, mas era a ausncia do sentimento que experimentava no sonho que o impedia de se comprometer com algum.
No queria apenas um corpo quente a seu lado  noite, partilhando a cama, a exemplo de seu pai. Cinco casamentos desfeitos provavam que o critrio de Shaun deixava algo a desejar. Queria algo mais. Queria uma companheira, uma alma gmea com a qual partilhar a vida. Provavelmente, pedia muito, considerando os dias atuais e sua prpria idade, mas no aceitaria menos.
Por isso, era quase certo que acabaria sozinho.
Naquele momento, porm, s de farra, repetiu as palavras que lhe eram ditadas. Sorriu ao repetir que amaria e respeitaria a mulher a seu lado durante todos os dias de sua vida.
O "reverendo" assentiu, parecendo satisfeito, e voltou a ateno s mulheres.
	timo, agora as noivas. Eu... digam os seus nomes, por favor... juro solenemente...
Com o canto do olho, Cheyenne percebeu que O'Hara olhava para ele, com uma expresso divertida. Ora, a encenao inspirava um belo ttulo para seu artigo: "Fui a sra. Grant O'Hara por cinco minutos".
Em voz alto, declarou:
	Eu, Cheyenne Tarantino, juro solenemente...  Sua voz parecia sobressair-se s outras.
O reverendo entrelaou os dedos, olhou para os casais com um sorriso beatfico nos lbios.
	Com a autoridade a mim investida, eu agora os declaro maridos e mulheres.  Desvencilhando os dedos, gesticulou para que os casais se juntassem mais.  Podem beijar as noivas, cavalheiros.
Talvez refugiar-se naquele saio no tivesse sido m ideia, afinal. Grant olhou para o rosto de Cheyenne e passou a mo delicadamente sobre a pele macia.
	Se no nos beijarmos, vamos chamar a ateno...
No havia nenhum motivo razovel para ela estar com dificuldade em introduzir ar os pulmes. Nenhum motivo em absoluto. Ento, por que no conseguia? Por que tinha a impresso de que o tempo se congelara ao simples toque dele em seu rosto?
No fazia sentido.
	Tem razo  concordou ela, a voz um murmrio, devido  falta de ar e ao corao to disparado quanto na hora da fuga do diabos atrs dela.
Um segundo antes de Grant tom-la nos braos, menos de uma batida de corao antes, ela entendeu.
Entendeu que aquilo no era algo de que poderia se desfazer com facilidade, a exemplo dos outros beijos sem significado que experimentara.
Desejou estar errada.
Mas no estava.
Assim que seus lbios se tocaram, Cheyenne constatou que Grant O'Hara era to suave e habilidoso quanto fizera crer e quanto ela mesma avaliara. Mas habilidade e gentileza podiam ser contornadas, catalogadas e at mesmo desdenhadas. Tratava-se de algo mais.
Muito mais.
Ele movimentou os lbios devagar, e ento, com mais urgncia, retirando-a do mundo real e criando um mundo paralelo, um mundo onde s havia os dois, onde s havia uma necessidade.
Bolas, podia at sentir a terra tremer e nem estavam na Califrnia. No tinha a falha de San Andreas para culpar.
Cheyenne sentiu o buque escorregar de sua mo. No instante seguinte, enterrava as mos nos cabelos sedosos de Grant, contorcendo o corpo para entregar-se mais ao beijo.
E perdeu toda a razo.

CAPTULO QUATRO

Grant ergueu a cabea, mais atnito do que queria admitir, e fitou a mulher que acabara de beijar como se nunca a houvesse visto antes.
E talvez nunca houvesse mesmo, no da maneira que realmente importava. Ela era bonita, refinada e inteligente. Merecia todos os adjetivos dedicados a um cavalo de corrida ou a uma srie de outras coisas... Com a diferena de que, nesses outros casos, nunca sentira essa fora devastadora esperando para ser liberada.
Ou aquilo fora acaso?
Acaso ou no, era como se tivesse sido atropelado por um rolo compressor e largado para morrer... dali a algum tempo ainda!
Se o bigode que usava como parte da fantasia fosse verdadeiro, estaria com as pontas levantadas para cima. Em resumo, sentia-se entorpecido. Isso no acontecia desde sua primeira expedio  terra do sexo oposto, mas sem aquela sensao de desorientao incomodando-o.
Talvez fosse o salo e o fato de haver tantas pessoas ali dentro, consumindo oxignio. Realmente, no queria atribuir a reao que sentia a mais nenhum outro fator. Seria enervante demais.
	Ora, Scarlett...  desabafou, sorrindo.  Estou surpreso. Voc me deixa sem fala.
	Ento, como est falando?
Percebendo que quase desdenhara dele, Cheyenne esforou-se para se controlar. No era de seu feitio responder to bruscamente, bem como reagir daquela forma ao estmulo do beijo. Se bem que os dois eventos estavam relacionados. Respondera de forma rude a fim de mascarar sua reao a Grant CHara.
A ltima coisa que desejava era que ele soubesse que conseguira abalar seu autocontrole.
Desconfiava de que teria problema em manter a atitude, pois estava sentindo as pernas bambas. Mas era de sua natureza esconder-se atacando.
No queria enfrentar aquilo novamente, no com algum com a experincia e reputao de Grant O'Hara. E escaparia ilesa, ainda que a batalha fosse ser desgastante.
Grant refletiu, tentando controlar-se.
	Boa pergunta...
Esfregou o polegar no lbio inferior. Olhando-a detidamente, concluiu que seria difcil dizer qual dos dois estava mais excitado. Mas valia a pena investigar.
	No sei se a tempestade que vem a tem algo a ver com isso, mas, moa, voc com certeza derruba qualquer homem!
Igualmente, pensou ela.
Cheyenne tentou se recompor, mas parecia no conseguir se mover, embora estivesse vagamente ciente de que alguns casais j deixavam o salo.
Que absurdo! Era uma mulher adulta. Reagira exagerada-mente por estarem num espao lotado. Mesmo assim, quando tentou dar uma resposta desdenhosa, mal encontrou a voz. Mantinha absorta na boca sensual de Grant O'Hara, no modo como ele a curvava ao sorrir, no movimento ao falar.
	Voc ainda no viu minha sequncia de golpes  conseguiu sussurrar.
Grant fazia uma boa ideia do que aquilo significava.
	Por que no me mostra?
J encostara os lbios nos dela novamente quando algum pousou a mo em seu brao. Erguendo a cabea, viu o assistente do reverendo. Tentou controlar a irritao ante a interrupo inoportuna.
O homem baixo balanou a cabea.
	Desculpem-me, mas tero que fazer isso em outro lugar.
O salo est alugado s at as sete horas.  Enfatizou mostrando o relgio de pulso. Olhou para Grant, depois para Cheyenne
e novamente para Grant.  Vocs assinaram a certido?
Confuso, Grant ergueu uma sobrancelha.
	Certido?
O assistente bufou.
	Acho que no.  Girou nos calcanhares.  Acompanhem-me  instruiu. Deu dois passos e olhou por sobre o ombro. Eles no tinham se mexido.  Bem? Por que esto a parados? Vamos.
	Ouviu o homem!  Esportivo, Grant tomou Cheyenne pelo brao e conduziu-a  frente. Metade dos casais j deixara o salo.
Aparentemente, aquela festa em particular, alis no muito divertida, estava oficialmente encerrada. No fundo do salo, questionou de novo ao homenzinho:  Para onde vamos, afinal?
Pararam quase diante do altar, junto a uma mesa totalmente deslocada do ambiente sobre a qual arrumavam-se pilhas de papis. O assistente pegou uma folha da ltima pilha e colocou-a diante deles, oferecendo uma caneta a Grant.
	Por favor, assinem a certido.
	Mas que certido  essa?  Grant olhou para o papel.
As palavras "certido de casamento" estavam escritas no alto da folha, seguidas do nome do condado e do Estado. O reverendo e seu assistente tinham tido a preocupao de preparar tudo para que parecesse de verdade. A certido exibia at o selo do Estado, bem como a assinatura de uma autoridade.
Achando que poderia ser um souuenir interessante para Cheyenne, Grant continuou com a brincadeira e assinou, passando-lhe a caneta em seguida.
Cheyenne mordeu o lbio inferior, apreensiva em colocar seu nome num documento mesmo sabendo que se tratava de uma brincadeira. Ento, encolhendo os ombros, imitou o gesto de Grant e assinou. Mal traara a ltima letra, o assistente arrebatou a caneta e acrescentou sua prpria assinatura sobre a linha reservada  testemunha.
Ela sentiu o n no estmago se apertar.
	No acha que est levando isso longe demais?
O assistente fez que no ouviu. Aps produzir uma cpia da certido numa pequena mquina xerogrfica, deixou a original sobre a mesa.
	No mais do que exige a burocracia no Estado da Louisiana.
Grant olhou novamente para o documento sobre a mesa. Parecia autntico. Talvez autntico demais.
	Espere um pouco, isto no foi uma encenao de carnaval? 
O olhar confuso do assistente deixou ambos inquietos.
	De fato, faz parte das comemoraes  admitiu o homem.
	A melhor parte.  Endireitou o corpo at atingir a altura mxima que, apesar dos saltos, era de cerca de um metro e cinquenta.  O reverendo achou que seria um belo contraste, em meio a toda essa idolatria, promover um acontecimento valioso e decente.
Cheyenne sentiu o impacto das palavras do homem. O n no estmago virou nsia e ela arregalou os olhos.
	Como?  murmurou.
O assistente olhou para eles como se fossem dementes. Passou ento a guardar as vrias pilhas de papis numa pasta e, feito isso, trancou-a.
	Ouam, ambos compareceram de livre e espontnea vontade. Ningum os forou a nada. Foram vocs que quiseram se casar.  Balanou a cabea, reprovador.  Sei de gente que se apavora antes do casamento, no depois...
Grant agarrou o homenzinho pelos ombros e pressionou-o contra a parede. Queria respostas claras.
	Deixe-me ver se entendi. Ns dois estamos casados?
O assistente olhou para o altar,  procura do reverendo, mas ele no estava l. O tremor veio em seguida.
	Esto.
Ao lado de Grant, Cheyenne tambm pressionou o assistente, no com as mos, mas com o olhar. Esforou-se para emitir a voz sem o tom de horror. Aquilo no podia estar acontecendo!
	Casados de verdade?
	Casados de verdade  repetiu o assistente. Quando Grant relaxou as mos, massageou os ombros e postou-se ao lado de Cheyenne, precavido.  Fique longe de mim  advertiu.
Cheyenne recusava-se a acreditar nele.
	Mas no podemos estar casados! So necessrios exames de sangue, aguardar os proclamas, licenas...  enumerou, com a voz em tom de pnico.
J ouvira falar de pastores realizando casamentos coletivos, mas aquilo sempre ocorria na esteira de uma campanha de converso, ou simplesmente para publicidade. Mas no ficara sabendo de nenhuma programao nesse sentido. Se Stan estivesse a par, teria lhe contado. Nem que fosse para ela ir tirar algumas fotos...
Ora, Stan... O homem que mal sabia em que ano estavam, mesmo com um calendrio a sua frente na mesa.
Lanou um ltimo olhar desesperado ao assistente, rogando para que ele dissesse que fora tudo brincadeira.
	Dispensaram todas as formalidades  declarou o atendente, com orgulho.  Eu cuidei dos detalhes pessoalmente. O prefeito teve a decncia de considerar que isto poderia fazer bem  imagem da cidade.  As rugas na testa se amenizaram ao mesmo tempo em que um sorriso tolerante tomou conta de seus lbios.  Ouam, no estraguem algo bom. Pensem no assunto. Se ainda se sentirem assim pela manh, podem pedir uma anulao.  Encolheu os ombros e bateu na certido original sobre a mesa.  Parabns.
Sem fala, confusa, Cheyenne pegou o documento e ficou olhando para as letras. Oh, ento, era verdade... Estava casada. Como isso acontecera?
	Acho que no estamos mais no Kansas, Tot  recitou, recordado um trecho de histria infantil.
O assistente lanou-lhe um olhar esquisito.
	No, estamos em Nova Orleans, Louisiana, senhora. A menos que a tempestade decida nos relocar.  Trabalho concludo, colocou pasta debaixo do brao.  Se fosse vocs, eu voltaria para casa ou para o hotel e esperaria a tempestade passar. Parece que a previso do tempo acertou desta vez. Vai ser uma tempestade daquelas. Estou sentindo nos ossos...
Assim dizendo, passou pelos recm-casados e apressou-se para a porta.
	Deixe-me ver.  Grant tomou a certido de Cheyenne.
Analisou o documento e franziu o cenho como se procurasse alguma irregularidade ou inconsistncia.
Cheyenne suspirou.
	Parece bastante legal.
Ele tinha o olhar sombrio ao encar-la.
	Legal ou no, isto no est firmado!
Ela no gostou do tom. Ele achava que ela ia tentar fazer aquilo valer? Que tipo de mulher pensava que ela era? Franziu os lbios, desgostosa. Talvez estivesse sendo injusta.  parte a garantia do amigo Stan, Grant no sabia com que tipo de mulher estava lidando.
	No se preocupe  tranquilizou Cheyenne.  No tenho a inteno de faz-lo honrar esse compromisso.  Apontou um dedo para o papel.  Tenho escrpulos, provavelmente mais do que voc. Quando me casar... quando realmente me casar, vai ser por amor, no por dinheiro.
Ele dobrou o papel e colocou-o no bolso do palet, o olhar fixo em Cheyenne. J no ouvira isso antes?, divertiu-se, sarcstico. Sim, de todas as mulheres com quem j sara!
	Muito nobre de sua parte.
Que recompensa por ser sincera. No se importava com o tipo de pessoa gananciosa a que ele estava acostumado. S estava informando-o de que queria estar atrelada quele papel tanto quanto ele. Quem ele achava que era, tratando-a daquele jeito?
	Parece que no est acreditando em mim  acusou.
E no acreditava mesmo. As mulheres que conhecera sabiam cuidar de seus interesses, o que era timo, desde que no o vissem como um trofeu a se colocar sobre a lareira.
	Duas mulheres que conheci entraram com aes judiciais requerendo reconhecimento de paternidade e penso alimentcia para filhos que no eram meus  revelou Grant, raivoso.
 Desculpe-me se ando cansado desse tipo de gente a ponto de aceitar os seus protestos com desconfiana.
Cheyenne perdeu a calma. Fora obrigada a desfilar pelas ruas com uma fantasia combinando com a dele para agrad-lo e tivera que fugir de assassinos fantasiados de diabo. Estava com calor, cansada e suada, sem mencionar o esgotamento mental, de modo que no bancaria a moa educada enquanto ele se comportava como um senhor feudal. Stan que tirasse suas prprias fotografias daquele arrogante!
	No, no desculpo!  rebateu ela, apertando o indicador no trax dele.  Essas experincias das quais falou foram com outras mulheres, no comigo!  Pressionou o dedo duas vezes contra a carne dura para enfatizar o ponto.  Estou dizendo que no quero me casar com voc e no h motivo para voc no acreditar na minha palavra!
Cega de raiva, Cheyenne pensou que estivessem sozinhos no salo at sentir a mo de algum no ombro. Suprimindo um soluo, espantou-se e sentiu o corao acelerar.
O reverendo estava atrs deles, com as mos nos ombros dos dois e um olhar apaziguador no rosto redondo.
	Ora, ora, crianas. O medo  algo natural. Vocs dois esto embarcando numa nova e misteriosa jornada juntos. Mas deixem seus temores de lado e apiem-se um no outro nos tempos difceis.  Encarou Cheyenne.  No h nada mais reconfortante do que o toque da mo do ser amado nas pocas de tristeza e provao.
Para enfatizar o ponto, juntou-lhes as mos. Cansada, Cheyenne retirou a mo imediatamente.
	Neste momento, o toque da mo do ser amado  que est causando estresse!
O reverendo franziu o lbio e balanou a cabea, desaprovador.
	Minhas condolncias, jovem  disse a Grant.  Voc escolheu um osso duro de roer. - Sorrindo gentil, bateu de leve no ombro dele.  Mas, lembre-se, filho, quanto mais difcil a colheita, mais doce a fruta...  Vestiu uma capa de chuva amarela.  Agora, devo ir e me abrigar da tempestade. Tenham uma boa vida em comum.  Era mais uma ordem do que um desejo de sorte.  Alis, o pessoal da faxina deve vir logo...
O ministro os deixou sozinhos no salo, envoltos em desconforto e isolados dos sons externos.
	Oua...  tartamudeou Grant.  Desculpe-me se fui rude. E que sou um tanto estourado...
Ela aceitou a desculpa.
	Somos dois.
	Cuidaremos deste assunto amanh, logo cedo.
Cheyenne ergueu a cmera a tiracolo, consolando-se com o toque familiar do couro.
	No vejo a hora.
Ela parecia mesmo querer dizer aquilo, pensou ele. Seria um casamento ruim a causa daquela atitude? Pensou no pai. Provavelmente.
Olhou para a porta. As ruas estavam to apinhadas de gente quanto antes, mas o reverendo tinha razo quanto ao tempo. O vento, antes leve, ganhara fora e agora agitava com fora as fantasias e adereos carnavalescos. Esteva na hora de sarem dali.
	Tenho um convite para o baile  comentou, e apalpou o bolso.  Por que no vamos direto para l?
Cheyenne no se sentia muito festiva.
H quatro pessoas atrs de mim, uma tempestade est prestes a desabar e, aparentemente, estamos casados, algo que nenhum dos dois deseja. No me parece apropriado ir a uma festa.
Dois homens de uniforme cinza chegaram com um carrinho de utenslios e produtos de limpeza. O mais jovem olhou-os confuso. Grant conduziu Cheyenne para fora do salo.
	Fala como uma mulher que no sabe o verdadeiro significado da palavra divertimento.
Ela estava irritada demais para ser educada.
	Eu me divirto, O'Hara, mas este... oh, no.  Fugindo para a lateral do prdio, pressionou-o contra a parede.
Por um momento, Grant achou que ela perdera a razo. Mas aproveitou a sensao de estar to perto dela.
	So eles  sussurrou ela, atnita.
Grant procurou com o olhar. Levou um minuto at ver o homem que assustara Cheyenne. Engraado, mas aquele diabo parecia mais baixo do que os outros.
Cheyenne puxou-o de novo para junto da parede.
	Por que simplesmente no agita uma bandeira vermelha para ele?  ralhou.  Ele pode no t-lo visto.
Grant entendia a agitao dela, mas talvez no tivesse fundamento.
	Cheyenne, no temos como saber se esse  o diabo certo ou no.
Irritada, ela franziu o cenho.
	Quer ficar e perguntar a ele?
	Tem razo.  Tomando-a pela mo, Grant comeou a abrir caminho em meio  multido, rumando  direo oposta. A viso de outro diabo fez com que mudassem o curso para a rua Baronne, de volta ao hotel.
O vento, cada vez mais forte, arrancou o chapu da cabea de Cheyenne. praticamente jogando-o nos braos do segundo diabo. Com o corao na garganta, ela viu o homem pegar o acessrio e esquadrinhar a multido ao redor. Agarrou o brao de Grant.
	Talvez seja melhor esquecermos o baile e irmos direto para a delegacia!
Grant sabia que a polcia no poderia oferecer o tipo de proteo de que ela precisava, se aquelas fotografias fossem to incriminadoras quanto imaginavam. Mas ele podia oferecer-lhe proteo.
	Sendo Mardi Gras e com uma tempestade prestes a desabar, a polcia deve estar bastante atarefada.  Tomou a frente e conduziu-a at uma galeria.  Tenho uma ideia melhor.  Sacou o telefone celular e apertou uma nica tecla.
	Para quem est telefonando? Um  guarda-costas? . Cheyenne olhou por sobre o ombro. No havia sinal dos homens, mas eles poderiam aparecer a qualquer momento.
Grant ergueu a mo para silenci-la e balanou a cabea. Era difcil escutar com o barulho e o vento.
	Al? Riley?  Reconheceu a voz de seu motorista do outro lado da linha.  A ligao est ruim. Oua bem. Preciso do avio para hoje. , imediatamente...
Ele olhou para Cheyenne. Sentia que ela no ia gostar da ideia, mas, naquele momento, era o melhor plano. Planejara mesmo visitar a ilha rapidamente... Pois iria antes do programado.
O sinal estava ficando cada vez mais fraco. Grant cobriu o outro ouvido.
	Vamos voar para a ilha. Sim, estou ciente da tempestade, mas, se decolarmos na prxima meia hora, chegaremos l antes dela. Chame o piloto e diga-lhe para me esperar no aeroporto.
Depois, venha me pegar com a limusine na esquina da Carondelet com a Howard o mais rpido possvel.
Fechou o telefone e guardou-o no bolso. Cheyenne olhava-o estupefata.
	Vamos voar at a sua ilha?
Ele enlouquecera? No se levantava vo sob ameaa de tempestade! Nessas ocasies, todos se enfiavam debaixo dos lenis e aguardavam a calmaria.
Sem responder, Grant tomou-lhe a mo novamente e seguiu na direo da rua Howard. O motorista deveria chegar logo. Riley conhecia a cidade como ningum e orgulhava-se de sempre cumprir o horrio, no importavam as condies do trnsito.
	Voc estar a salvo l at amanh  assegurou-lhe.  Ento, iremos direto  polcia contar toda a histria.
	E com as minhas fotos  enfatizou ela.
	E com as suas fotos  repetiu ele.
	E quanto  reportagem?  indagou ela.  Sabe... vou acompanh-lo por dois dias.
Ele devia ter feito um exame neurolgico quando concordou com aquela invaso de privacidade.
	Pensei que manter-se viva fosse o bastante para voc.
	Talvez para mim, mas no para Stan. Ele vai querer a reportagem de capa... e voc lhe deu sua palavra  reforou ela.  E voc tambm disse que nunca quebra a palavra.
Ele suspirou ao chegarem na esquina.
	Vamos pensar em algo...  Ento, sorriu. A um quarteiro dali, aproximando-se devagar, vinha a limusine. Sabia que podia contar com Riley.  Vamos, nossa carona chegou.
Michael Riley parecia mais um mercenrio do que motorista. Com certeza, no tinha a aparncia dos profissionais do ramo. Cheyenne ficou imaginando onde Grant o encontrara e quais seriam suas referncias. Fez uma anotao mental para tirar fotos do homem mais tarde.
	Conseguiu entrar em contato com Jack?  perguntou Grant ao motorista, entrando no carro.
	Tudo foi providenciado, senhor.  Riley fechou a porta e foi para trs do volante.
	Jack?  indagou Cheyenne.
	O piloto  esclareceu Grant. -
Cheyenne sentiu um n no estmago novamente, mas por um motivo diferente.
	Ento, vamos mesmo voar para a ilha?
Ele assentiu. Comeou a chover, mas s o bastante para arrefecer a animao dos folies mais cansados. Os demais, notou, enquanto a limusine deslizava pelas ruas, no pareciam nem notar que o tempo mudara.
	No posso pensar em lugar mais apropriado para uma lua-de-mel...
Grant viu Riley erguer uma sobrancelha, mas sabia que o homem manteria suas indagaes para si mesmo. Era um empregado discreto e eficiente.
	Lua-de-mel?  Cheyenne esqueceu temporariamente o perigo  espreita, ciente de outro problema mais prximo. A discusso que tivera com Stan sobre a reputao de Grant O'Hara voltou-lhe  mente. A ideia de ir para a ilha lhe parecia uma pior a cada minuto.  Eu no acho...
Ela estava nervosa, concluiu Grant, mas deixou o momento seguir seu rumo.
	Quer a sua histria, no quer?
Coero? Ora, Grant O'Hara rapidamente escorregava do pedestal que Stan lhe construra.
	Sim, mas acho que no gosto desse seu olhar  replicou Cheyenne.  No vou tirar vantagem dessa situao, sr. O'Hara. Acho que no  preciso dizer que espero que o senhor aja da mesma forma.
Ele decidiu acalm-la.
	Relaxe, sempre me comportei como um cavalheiro.  Podia apostar que ela no acreditava em uma palavra sequer.
 Pergunte a Stan.
Stan iludia-se pela nostalgia e lembranas comuns. Alm disso, no estava ali!
	Ento, por que duas mulheres entraram com aes para reconhecimento de paternidade?
Grant grunhiu, desgostoso.
	Uma delas era muito criativa e fantasiosa. Para eu ser o pai, teria que ter estado grvida por treze meses...
Cheyenne conhecia o tipo de Grant. Homens como ele usavam a aparncia, o dinheiro e a fala mansa para conseguir o que queriam, at se cansar da brincadeira. Vira a me passar por inmeros relacionamentos assim.
	Ela no ficou satisfeita com as migalhas que voc lhe deu?
	Cinquenta mil dlares no so migalhas.
No, no eram. A quantia surpreendeu-a.
	Dinheiro para comprar uma conscincia limpa?
	Um presente de separao  corrigiu ele.  E, se um dia, ainda que por acidente, eu venha a gerar um filho, pretendo no apenas me responsabilizar como tomar parte na criao dessa criana. Agora,  minha imaginao, ou estou detectando uma ponta de hostilidade em voc?
No havia nada mais desagradvel para Cheyenne do que ter o jogo virado e, ainda por cima, ser analisada. Grant CHara conseguira fazer as duas coisas em dois minutos.
	Chame de desconfiana.
Ele preferia chamar uma espada de espada. Se ela queria honestidade, ele tambm no aceitaria menos.
	Algum a passou para trs, srta. Tarantino?
Ela ergueu o queixo, parecendo ofendida.
	Algum passou a minha me para trs, O'Hara.
Ainda que Cheyenne se mostrasse protetora em relao  me, a verdade era que nunca haviam partilhado uma intimidade. Anita parecia nunca ter tempo para isso. No aia de encontrar o amor, ela ignorara a nica pessoa que poderia ter-lhe dado isso de forma inequvoca.
	Na verdade, muitos "algum". Minha me era uma mulher simples que tendia a acreditar em tudo o que um homem lhe dizia.  Enrijeceu o maxilar.  Esse sempre foi seu ponto fraco.
	Mas no  o seu...
No era uma especulao de Grant. Era evidente que Cheyenne fora criada por uma me mais interessada em si mesma do que na filha, o que a fortalecera. De certa forma, supunha, tinham algo em comum. Ambos haviam se criado em lares com um nico genitor, praticamente por conta prpria. A nica diferena era que ele tivera dinheiro.
	No  concordou ela.  Prefiro descobrir as coisas sozinha, ao invs de acreditar nas palavras das pessoas.
Ele recostou-se no banco da limusine e avaliou-a.
	Fica difcil quando o amor entra em cena, no acha?
Amor era algo que Cheyenne desconhecia. Mas Grant no precisava saber disso.
	No, no me perturbo com questes amorosas. No acredito em palavras, O'Hara. Aes falam mais alto.
Ele assentiu, pensativo.
	Eu me lembrarei disso.
Cheyenne ficou com a estranha sensao de ter pisado em areia movedia.

CAPITULO CINCO

	Est ciente de que o n dos seus dedos esto quase brancos?
A pergunta de Grant ecoou no crebro de Cheyenne por algum tempo. S ento ela se deu conta de que ele lhe diria a palavra, embora no houvesse ningum alm deles na cabine de passageiros do avio.
Tinha trauma de vo desde que um dos "amigos" de sua me as levara para dar uma volta. Escaparam da morte por um triz quando, um dos motores pegou fogo. Sofrera pesadelos dos sete anos aos treze anos. Mesmo agora, os sonhos ruins a assombravam de vez em quando, acordando-a com a boca seca e as mos midas.
Alis, as mesmas sensaes que experimentava naquele momento. Tentou se concentrar na respirao. Mulheres adultas com carreiras estabelecidas no ficavam ofegantes na frente de estranhos.
No se abandonavam a eles, tampouco.
	No estou ciente de nada, exceto de meu estmago  explicou ela, com os dentes cerrados.
Ela parecia a ponto de arrancar os braos da poltrona a qualquer instante. Grant no sabia se achava engraado ou se ficava preocupado.
	Acho que no est se referindo  fome...
Cheyenne lanou um olhar ameaador em sua direo.
	Mencione qualquer coisa no aproveitvel para o meu artigo e, prometo-lhe, vai se arrepender muito.
Grant cogitou se ela falava srio ou apenas estabelecia um tom de conversa. Por que no avisara, antes de embarcarem, que tinha medo de voar?
Talvez estivesse preocupada com a tempestade. Quando chegaram ao aeroporto, o vento j flexionava as rvores.
	A tempestade ainda no comeou. Estamos a salvo, Cheyenne.
Ele estava brincando? Cheyenne podia sentir o estmago na garganta a cada balano do avio. Comprimiu os lbios, esforando-se para manter o controle.
No estava adiantando.
	Estar em uma caixinha prateada a centenas de metros do cho no  a minha definio para "estar a salvo", O'Hara.
	Voc no gosta de voar.
Grant valia-se de um eufemismo no momento em que o avio balanava ao sabor da tempestade como uma ovelha de oferenda diante do altar.
	"Detestar" define melhor meu sentimento.
Conhecendo a profisso dela, Grant achava difcil acreditar.
	Como voc trabalha desse jeito?
	Oh, eu me arranjo.  s vezes, no era fcil, pensou Cheyenne, mas geralmente conseguia.  A maioria dos lugares aos quais preciso ir so acessveis por meios de transporte que no envolvem pousos e decolagens.
Ao ver uma fina camada de suor na testa lisa, Grant concluiu que ela estava mesmo com medo. E achava aquela reao difcil de compreender. Ele adorava tanto Voar que at tirara breve, embora, com o tempo assim, confiava muito mais na experincia de Jack do que na sua. Jack era ex-piloto da Fora Area e voara vrias vezes em misses de combate.
	E os lugares que no so acessveis?  pressionou-a.
	Vou de avio, mas as poltronas precisam de reforma depois  respondeu ela.
Cheyenne respirou fundo, tentando controlar a pulsao errtica. Estava mais acelerada do que quando ele a beijara, percebeu. Mas, naquele caso, ao menos, a sensao fora to excitante quanto assustadora.
O que sentia agora era puramente terror.
Grant olhou o relgio. J deveriam ter chegado  ilha, mas voavam contra o vento, o que dobrava o tempo de viagem. S por causa de Cheyenne, gostaria que aquilo acabasse logo. Embora o vo estivesse turbulento, no havia nenhum perigo.
J foi ao mdico para tratar dessa fobia?
A soluo de homem rico.
	Um analista?  Ela curvou os lbios, desdenhosa.  No, obrigada. Na melhor das hipteses, eles so amigos pagos. Se preciso conversar, telefono a algum que no me cobre uma soma exorbitante para me ouvir. Alm disso, isto no  uma fobia  insistiu. Fobias eram medos infundados. Os dela tinham fundamento: acidentes areos.
	Oh?  perguntou Grant, divertido com o jeito ofendido dela.  Ento,  o qu?
Ela sentiu o golpe na boca do estmago, o qual, alis, ameaava subir-lhe  garganta. Sentiu um gosto amargo na boca.
	Um respeito saudvel s leis da fsica  retrucou, Cheyenne j estava quase to verde quanto sua fantasia. Se no conseguia distra-la, pelo menos a manteria falando.
	Ento, deve perceber que estamos mais a salvo no ar do que no cho.
Ela forou-se a encar-lo, deixando de lado a janelinha.
	Estava me referindo  lei mais bsica de que tudo o que sobe desce. s vezes, mais rpido do que quando subiu.  Ela viu Grant alargar o sorriso. Provavelmente, ele estava achando aquilo engraado. Teria ficado irritada se no estivesse to enjoada.  Alm disso, se tiver um acidente no cho, tenho chance de sair andando. Minhas chances diminuem drasticamente  medida que a altitude aumenta.
Um relmpago iluminou todo o cu e tambm a cabine. Grant viu o medo se intensificar no olhar dela. Era desconfortvel para ele tambm, mas era importante mant-la falando,
	Voc no pode ser mais preocupada do que eu, Cheyenne.
Como ele podia ficar ali sentado, como se estivessem na sala conversando sobre um jogo que ia comear na televiso? Aquilo fora um raio que cortara o cu. O prximo poderia cort-los ao meio!
	Eu prefiro pensar em mim como uma realista.
Ou fatalista, acrescentou ele, silenciosamente.
	Voc gosta de montanha-russa?
O que aquilo tinha a ver?
	Gosto  respondeu, cautelosa.
	Otimo, pense nesse avio como uma montanha-russa gigante.  O avio balanou, mergulhou e voltou a nivelar, Ele mesmo ficou enjoado.  Uma montanha-russa flexvel  remendou e pressionou um boto no brao da poltrona.  Jack?
	E s um pouco de turbulncia, sr. O'Hara, nada que eu no possa contornar  respondeu o piloto, a voz grave e potente.
Grant soltou o boto.
	Est vendo? Nada com que se preocupar. Jack j voou em combate.
	Ento, se um raio nos atingir, ele tem cobertura, certo?  Tinha que se controlar, pensou, ou OHara a consideraria mesmo uma doente!  A que distncia estamos da sua ilha?
Se ele dissesse a distncia, ela acabaria percebendo que j deveriam ter chegado.
	Estaremos l antes que perceba.
	No contaria com isso. J sinto como se estivssemos no ar a noite toda.  Para sua surpresa, ele tomou-lhe a mo.
Estava fria e mida, pensou ele, temendo que os dedos se esfacelassem de to rgidos. Entrelaou suas mos.
	Talvez, se tentasse pensar em outra coisa, no ficaria to preocupada com o vo.
O primeiro impulso de Cheyenne foi tentar liberar a mo, mas teve que admitir que havia um certo conforto em t-la capturada entre as dele. Seria melhor s ele a abraasse, mas sabia que isso lhe daria uma impresso errada.
	No estou preocupada com o vo  corrigiu ela.  Estou preocupada com a possibilidade de acidente.
Grant riu, mas o tom era de simpatia.
	Isso no  nada sofisticado da sua parte, Cheyenne.
Ela ergueu o queixo, irritada com o divertimento dele.
	Desculpe-me por decepcion-lo.
O tom frio trouxe esperana a Grant. Ele a provocara a ponto de ela sair do estado de paralisia.
	Oh, voc no me decepciona...
Parecia que sua vida tinha sido virada de pernas para o ar desde que a conhecera. Passou o polegar sobre a mo delicada e lembrou-se de como era beij-la.
	Para ser sincero, poderia at agradecer a Stan por me colocar naquele jogo de pquer. Desde que essa sua matria no seja muito invasiva ou desfavorvel  ressalvou.
Ela falou antes de pensar, um hbito que imaginara ter erradicado, mas que aparentemente voltava em situaes de estresse.
	No posso imaginar nada desfavorvel em voc.
Ele ergueu uma sobrancelha interrogativa.
	Foi um cumprimento?
Desta vez, ela retirou a mo, voltou a agarrar o apoio e desejou ter fora suficiente para mant-la ali.
	Observao. A cmera no faz julgamento. Ela s registra.
Era uma filosofia interessante, mas no uma que ele compraria.
	A cmera est em suas mos. Tem que refletir o que voc pensa, o que voc v. Voc escolhe as fotos que vai bater  observou ele.  A cmera no faz nada sozinha.
Ele a viu sorrir pela primeira vez desde que haviam entrado no avio.
	Voc ficaria surpreso.  s vezes, achava ela, a cmera parecia ter desejo prprio.  Eu s vou pelo passeio.
Ele duvidava de que Cheyenne Tarantino fosse a algum lugar s pelo passeio. Sem a fobia para atrapalhar, tinha a impresso de que ela era o tipo de mulher que ou se sentava ao volante, ou no ia a lugar algum.
O rosto dela recuperava uma cor saudvel. Otimo, pensou ele, estava dando certo: ela no estava pensando no vo.
	H quanto tempo faz isso?
Ela pensou na cmera velha e manual que a me lhe dera em seu dcimo aniversrio. Viera de uma loja de penhores. A mesma loja de penhores ao qual Anita Tarantino periodicamente levava o anel de diamante da av, a nica coisa de valor que possuam. No desejara a cmera de presente, mas uma boneca igual  das amiguinhas, com cabelos loiros e rou-pinhas bonitas. Era normal a me nunca prestar ateno a ela, mas acreditara que ao menos daquela vez...
Decepcionada, deixara a cmera no armrio at que a frustrao e o marasmo a fizessem experimentar o novo passatempo. Miguel dera-lhe dinheiro para comprar filme e um mundo novo abriu-se para ela.
Mas a histria era pessoal demais para partilhar. Cheyenne encolheu os ombros.
	Desde sempre.
L estava novamente, aquele toque de vulnerabilidade no olhar que o deixava intrigado. Aquilo indicava-lhe que havia muito mais nela do que ela permitia ver.
	Voc no  to velha  comentou.
Cheyenne riu para si mesma.
	As vezes, sinto que sou.  E sentia mesmo, sempre que colocava-se na posio de observadora, vendo o resto da vida passar, optando por registrar ao invs de tomar parte.
Grant esqueceu-se de mant-la distrada do vo e da tempestade que se aproximava. De repente, desejou saber coisas sobre ela. Coisas que ela mantinha em segredo. Queria a intimidade de uma resposta que ela no partilharia com mais ningum.
	E por que isso?
Ela encolheu os ombros.
	As horas que eu capturo  mentiu. E ento lanou-lhe um olhar que informou-o de que estava fazendo perguntas demais. 
	Stan lhe disse que voc teria o mesmo tempo para perguntas?
	Desculpe-me  ofereceu ele, erguendo as mos.  Mulheres fascinantes me intrigam.
L estava. Sendo filha de quem era, ficava duas vezes mais desconfiada e duas vezes mais esperta sempre que ouvia um elogio gratuito. Aprendera cedo que, por trs de todo cumprimento, jazia uma mentira.
	Aprendeu isso no curso bsico sobre damas assassinas?
	Desculpe-me, nunca fiz esse curso. E nunca matei nenhuma dama, embora houvesse uma ou duas s quais no me importaria ter estrangulado.  Grant olhou para ela direto.	Mas passou, e meu bom humor natural prevaleceu.
	Quanta modstia  desdenhou Cheyenne.
	Eu disse bom humor, no boa aparncia  observou Grant.	Se eu tivesse dito aparncia, a sim seria convencimento.
	Tem razo  concedeu ela, de novo uma reprter fotogrfica inspida. Enumerou suas qualidades:  Voc  bonito, rico e est no auge do sucesso, mas at agora no se casou. Por qu?
Perguntas sobre seu estado civil sempre o aborreciam. Como se sua vida particular fosse algo que as pessoas tivessem o direito de vasculhar. Mas dera sua palavra e, por isso, contou-lhe... embora soasse padronizado.
	No encontrei a pessoa certa.
	No tem nada mais original?  Dado seu estilo de vida e reputao, Cheyenne esperava uma resposta bem mais elaborada.
		A verdade no precisa ser original. Basta ser verdade.  Grant pensou em cortar o assunto ali mesmo, mas aquilo s a faria lembrar-se novamente do vo. Ento, decidiu dar mais informaes. Em parte, era um assunto de conhecimento pblico mesmo.  Meu pai se casou cinco vezes. Todos os casamentos acabaram em divrcio... e em desastre antes disso. No sei porque ele se casou com essas mulheres. Talvez achasse que estava apaixonado. Talvez tivesse medo de ficar sozinho.
Porque, por baixo daquele jeito ruidoso e rude, o velho tinha medo, pensou Grant. Medo de ficar sozinho. Apesar disso, nunca descobrira uma maneira de eliminar a distncia entre ele e os filhos, compensando a ausncia com muito dinheiro. E dinheiro no comprava nada duradouro, muito menos amor ou carter. Seus meio-irmos eram, cada um a seu modo, testemunhas dessa constatao.
	E voc no tem esse medo  arriscou ela. No fora uma pergunta.
Grant supunha que sempre tivera a esperana de encontrar algum, mas era realista o suficiente para saber que as coisas no aconteciam s porque as pessoas queriam.
	Prefiro ficar sozinho a me prender a uma mulher escolhida num momento de desespero  explicou, sorriu.
Cheyenne sentiu aquele estmulo interior novamente e desejou capturar aquele sorriso em filme. Talvez, us-lo na capa. Isso garantiria vendas inditas... apostaria sua reputao nisso.
	O que foi?  indagou, desejando que ele parasse de olh-la daquele jeito.
Grant assentiu s mos dela no colo.
	Os ns dos dedos.
Confusa, ela olhou para as mos ao mesmo tempo que erguia a cmera.
	O que tm eles?
	No esto mais brancos.  Grant sentiu-se satisfeito.  Est vendo,  s uma questo de mente sobre a matria.  Voltando-se em sua poltrona, olhou pela janela. Ainda no chovia o bastante para se turvar a vista.  Veja, l est a ilha, bem  frente e abaixo.
	Gostaria que voc no tivesse escolhido essas palavras.
 Ela inclinou-se para ver, mas levou um momento para localizar a ilha, mesmo com Grant apontando na direo.  No  muito grande...
Ele nunca levara tamanho em considerao.
	No preciso de muito quando venho para c. S de privacidade.
Cheyenne curvou o lbio. No muito.
	E sua prpria linha area.
	Isso mesmo.  Ele riu.  S o bsico da vida.
	Como uma casa enorme  brincou Cheyenne. Apesar de sua reserva e determinao a resistir, viu-se gostando de Grant.  Talvez houvesse mais nele do que dinheiro e boa aparncia, conforme Stan afirmara.
	No  to grande  garantiu Grant, que j se hospedara em casas de praia muito maiores..
Ela olhou pela janelinha quando comearam a descer.
	Alguns reinos so menores.
	Cite um.
Ela estava preparada.
	Mnaco.
	Aperte o cinto  instruiu ele.
Defensiva, Cheyenne baixou o olhar ante o sorriso dele e fez o que ele aconselhava.
Miles Taylor aguardava junto  pista de pouso com um guarda-chuva preto enorme, que ele mantinha seguro apesar do vento forte. Aps o avio taxiar na pista e parar, apressou-se ao encontro dos passageiros.
Grant saltou primeiro e estendeu a mo a Cheyenne. Ela aceitou a ajuda, protegendo a cmera junto ao peito com a outra mo. Temerosa de que a gua danificasse o aparelho, escondeu-o sob a jaqueta verde.
Grant cumprimentou o empregado enquanto o piloto Jack saa da cabine.
	Ol, Miles, obrigado por ter vindo.
O homem posicionou o guarda-chuva, abrigando-os da chuva da melhor maneira possvel.
	Escolheu uma pssima noite para uma visita, senhor.
	A me natureza est apenas soltando um pouco de vapor aps o carnaval.  Grant voltou-se para apresentar Cheyenne.
	Cheyenne Tarantino, Miles Taylor, o caseiro. Miles e a esposa, Sarah, cuidam da casa quando no estou aqui.
Cheyenne mal teve tempo de dizer "ol". Grant passou o brao sobre seu ombro, enfiou-se debaixo do guarda-chuva e seguiu apressado para o carro.
Miles afastou-se e aguardou at que eles estivessem instalados no banco de trs antes de comentar.
	 mais nossa casa do que sua, sr. Grant. O senhor nunca est aqui...
Grant ajeitou-se ao lado de Cheyenne, cujo rosto brilhava com a umidade da chuva.
	A maioria das pessoas no reclamaria da ausncia do patro  retrucou ele.
Miles sentou-se ao volante e largou o guarda-chuva molhado entre os dois bancos da frente.
	A maioria das pessoas no trabalha para o senhor.  Enquanto esperava Jack ajustar o cinto de segurana, voltou-se para Cheyenne.
O escrutnio deixou-a ciente da aparncia e ela passou a mo pelo cabelo molhado, comentando:
	Devo estar parecendo um gato escaldado.
Incapaz de resistir, Grant pegou uma mecha de seu cabelo rebelde.
	Eu diria uma gata molhada.  Olhou para o caseiro.  Miles no v muita gente e s vezes esquece os bons modos. Voc est olhando-a fixamente, Miles.
	Desculpe-me  murmurou o empregado, e sorriu.   que o sr. Grant geralmente no traz moas para a ilha, senhorita.
Aquilo era surpreendente, pensou Cheyenne, fitando Grant enquanto o caseiro ligava o carro.
	Parece-me o lugar perfeito para um fim de semana idlico... quando no chove, claro  comentou ela.
	No tenho tido muitos fins de semana idlicos ultimamente... 	Com isso, Grant mudou de assunto. No queria mais falar de seus relacionamentos passageiros.  Jack, parece que vai ficar grudado aqui conosco esta noite.  Sabia que o piloto preferiria ir para o continente e voltar no dia seguinte para peg-los, mas o tempo estava ficando mesmo ruim. No queria perder o piloto... nem o avio.  Voc pode ficar no quarto de hspedes.
Jack balbuciou um agradecimento, obviamente contrariado ante a mau humor da natureza.
"Grudados" era como estavam ela e Grant, pensou Cheyenne, pelo menos at a tempestade se afastar para o oceano ou outro lugar. Pensou nas fotografias.
	Voc tem computador?
	O mais moderno. Tem todos os recursos que possa imaginar. Por qu? Est planejando trabalhar esta noite?
Ele podia pensar em outras coisas que preferiria fazer a v-la trabalhar. Por exemplo, ver o olhar dela se suavizar, como acontecera pouco antes de se beijarem no salo do casamento.
Ela assentiu.
	Quero dar uma olhada nas fotografias que tirei dos homens no beco...  Queria ter certeza de que as imagens estavam to ntidas quanto achava que estavam.
Jack voltou-se sobre o encosto.
	No precisa revelar o filme antes?
Ela balanou a cabea.
	Eu as tirei com a cmera digital. S preciso do programa de recuperao para ver o que consegui.  Ento, lembrou-se.
 Oh, com toda essa confuso, no tirei foto nenhuma de voc...  Imaginava se poderia colocar a imagem de Grant O'Hara sobre as fotos que obtivera dos desfiles. Meio trapaceiro, mas aquela no era mesmo uma entrevista tpica.
	Deixe para amanh.  Vendo o rosto do caseiro confuso pelo espelho retrovisor, Grant esclareceu:  A srta. Tarantino est fazendo uma reportagem fotogrfica sobre um dia na vida de Grant O'Hara.
	Dois dias na vida de Grant CHara  corrigiu Cheyenne.
	Que terminam quando mesmo?  perguntou ele, suspirando. Aquela mulher era a teimosia em pessoa.
Ela fez um clculo rpido.
	Depois de amanh, s seis horas, mais ou menos.
	Ns nos encontramos no restaurante s duas horas  lembrou ele.
	Para combinar os detalhes para o comeo da entrevista s seis  rebateu ela, e um trovo acompanhou a frase.
De repente, Miles manobrou o carro desviando-se de um galho cado na pista. Cheyenne sobressaltou-se e agarrou o brao de Grant. Instantaneamente, ele pousou a mo sobre a dela. 
Ela ruborizou, envergonhada, enquanto ajeitava-se novamente no banco do carro.
Fora, o vento se intensificava.
	Parece que agora  a tempestade mesmo chegando  opinou Grant.
	Chegamos  anunciou o caseiro, pisando no freio.
Estavam estacionados num ptio, bem em frente  entrada da casa.
Cheyenne deslizou pelo banco, seguindo Grant. O caseiro cobriu-os com o guarda-chuva da melhor maneira possvel.
	Olhe onde eu me meti  murmurou ela, segurando a cmera contra si.
	Foi voc que quis ser a minha sombra  observou Grant, quase gritando para que ela o ouvisse acima do baralho do vento forte.
	Nem me fale!
No fosse a luz que vinha da casa, estaria escuro demais para ela ver dois degraus  frente. A chuva incidia sobre eles por todos os lados, como saqueadores atacando viajantes indefesos. Ficaram completamente encharcados ao vencer a pequena distncia entre o carro e a casa.
	Oh, que provao...  lamuriou-se Cheyenne, pousando a cmera sobre a mesa do corredor de entrada.
Rapidamente, despiu a jaqueta, mantendo-a longe de si pois estava gotejando. A blusa estava to molhada que se grudava em seu corpo como uma segunda pele. Olhando para Grant, sentiu a pele se aquecer instantaneamente.
	Acho melhor trocar de roupa...  murmurou, constrangida.
Grant teve a complacncia de suprimir o riso.
	Tenho certeza de que podemos providenciar algo que o reverendo aprovaria.
	Reverendo?  O caseiro olhou para o piloto.
	O reverendo Ming  explicou Grant, e olhou para Cheyenne.  O homem que nos casou.
A mulher que entrava no corredor deixou o copo cair da bandeja. Mil cacos espalharam-se pelo piso.

CAPITULO SEIS

	Oh, Sarah, olhe o que voc fez!  O caseiro comeou a recolher os cacos de vidro.
Gheyenne pegou a bandeja das mos da mulher, que no lhe parecia muito bem.
Grant e o piloto trocaram olhares.
	Sarah no est se sentindo bem, sr. Grant  murmurou Miles, olhando para Cheyenne.  Ela devia estar deitada, mas no me ouve...
Sarah dispensou as palavras do marido, evidentemente curiosa.
	O senhor se casou'?
	No papel apenas  responderam Grant e Cheyenne, em coro.
Cheyenne riu com a bandeja na mo.
	E uma longa histria  disse a Sarah, com quem simpatizara instantaneamente.
Sentia-se mais prxima da empregada do que jamais se sentiria de Grant, pensou. Ambas tinham as mesmas razes. J Grant pertencia a um grupo ao qual ela chegara por determinao.
Uma longa histria, confirmou Grant, em silncio. E, a menos que estivesse enganado, ainda nem comeara.
	Se no soubesse, diria que voc est to ansiosa quanto eu para anular este casamento.
Cheyenne sorriu doce.
	Pode apostar.  Mostrou a bandeja  empregada.  Onde quer que eu coloque isto?
Miles pegou o utenslio.
	Pode deixar que eu levo. No devia ter se preocupado, senhorita... ou melhor, senhora...
	Cheyenne est timo  adiantou-se ela, com um sorriso fcil. Nunca apreciara ser tratada formalmente por pessoas com idade para ser seus pais. Voltou-se para Grant.  Agora, se me disser onde posso encontrar algo seco para vestir e me mostrar onde fica o seu computador...
Grant imaginou-se ajudando-a a tirar a fantasia molhada e tentou ganhar tempo. Podia at ver-se massageando a pele macia, apreciando as curvas sutis e atraentes daquele corpo... Num esforo supremo, forou-se a voltar  realidade.
	Sarah, tem algo que sirva a nossa hspede?
A mulher, que era uns dez centmetros mais baixa do que Cheyenne, pareceu ficar em dvida.
	Posso ver  declarou.
	Qualquer roupa serve, desde que esteja seca  comentou Cheyenne. pousando o brao nos ombros da mulher, por camaradagem.  Por que no me diz onde posso encontrar algo para usar e, ento, vai para a cama? No quero que piore por minha causa.
	Ela  gentil. E sim, senhor  comentou Miles, saindo com a bandeja.
Grant ficou parado por um momento, observando a sombra de Cheyenne desaparecer no corredor.
	Estava pensando a mesma coisa.
O piloto, notrio por ser um homem de poucas palavras, meramente sorriu, concordando.
Com certeza, j sentira-se mais confortvel, pensou Cheyenne, ajeitando os ombros dentro da blusa apertada ao sentar-se  frente do computador. Muito mais confortvel. Mas tinha de admitir que qualquer roupa seca era melhor do que a fantasia ensopada que acabara de descartar. Molhado, o vestido de Scar-lett pesava o dobro.
Arregaou as mangas, mas ainda sentia-se confinada. E resfriada. A blusa no permitia que se aquecesse. O vento frio que uivava l fora invadia tambm sua indumentria precria.
Ergueu novamente os ombros, esperando no romper as costuras, e experimentou a sensao de dja vu, como se j houvesse vivido aquela circunstncia antes. Sim, sentira o mesmo quando criana. O dinheiro era pouco, Anita nunca conseguia comprar roupas novas para a filha que parecia estar crescendo rpido demais.
Na escola, os coleguinhas gozavam de suas roupas apertadas, que a deixavam estranha e desajeitada, como Alice no pas das Maravilhas aps comer o cogumelo que a transformara em gigante.
Afastou as lembranas. As crianas nem imaginavam o quanto podiam ser cruis. Alm disso, estava a anos-luz de distncia da jovem desajeitada que no encontrava seu lugar na turma. Com um suspiro, olhou para o monitor novamente, esperando que a foto escolhida se materializasse no vdeo.
	Conseguiu alguma coisa?
Sobressaltada, Cheyenne voltou-se para ver de quem era a voz. Grant estava bem atrs dela. Como no percebera sua aproximao?
	No  declarou, envergonhada. Voltou-se novamente para o computador, detestando o rubor que sabia estar invadindo-lhe o rosto.  No ouvi voc chegando.  Esforou-se para concentrar-se no trabalho e encolheu os ombros quando a imagem comeou a surgir.  Quase...
	No quis assust-la  desculpou-se Grant. Tocou-lhe o brao e franziu o cenho.  Mas voc est arrepiada!
	Deve ser devido  sua proximidade  gracejou ela.  Ou talvez a sua casa precise de aquecimento.
Ele curvou os lbios.
	Direi a Miles.  Ele olhou-a atentamente. Ela trajava uma blusa e uma saia que ele se lembrava de ter visto em Sarah. O tecido agarrava-se a suas formas a cada respirao.
 Parece que as roupas no lhe caram muito bem...
	Muito observador.  Ela respirou fundo e sentiu-se ainda mais apertada. Se no tomasse cuidado, acabaria rasgando a blusa nas costas.  Isso me faz lembrar da adolescncia  comentou, distrada, observando a tela.  Nada parecia me servir.
Minha me dizia que eu crescia como erva daninha.  Riu divertida a balanou a cabea. O computador da sala de redao da revista era bem mais veloz. Aquele estava levando uma eternidade para carregar a foto.  Espanto-me que ela notasse...
Grant sentou-se na borda da escrivaninha, mais interessado na mulher do que na fotografia.
Por que no notaria?
Cheyenne encarou-o, de repente ciente de que estava falando demais. Encolheu os ombros, desdenhando o tema.
	Ela sempre estava ocupada demais com o trabalho... e com outras coisas.
	Por exemplo?
Cheyenne no se sentia bem recordando o passado, ainda mais diante de estranhos.
	Veja!  Cheyenne bateu na tela, excitada ao ver a fotografia.  L esto eles.
Grant inclinou-se atrs dela e analisou a tela. Quatro homens fantasiados de diabo estavam ao redor de uma forma cada no cho. Cheyenne levou o cursor at o corpo e clicou duas vezes. A imagem dobrou de tamanho ate preencher com-pletamente a rea da tela. Era um fantasiado de pirata.
Ela apontou para a poa vermelha junto  cabea do homem cado.
	Veja,  sangue! Eu sabia...
Grant pousou a mo em seus ombros.
	Tem razo,  sangue.
O que havia com ela? Contemplavam a fotografia de um homem morto, um homem assassinado, ora essa, e ela s pensava no fato de Grant CHara estar tocando-a. No era de seu feitio, pensou. Estava ficando parecida com a me aps todo aquele tempo? A ideia provocou-lhe arrepios.
Enrijeceu-se e desvencilhou-se da mo dele.
	Se tiver uma impressora colorida, posso fazer uma cpia e poderemos mostrar a foto  polcia amanh.
As luzes da casa piscaram duas vezes. Cheyenne ergueu a cabea e olhou para as lmpadas no exato momento em que a imagem no monitor desaparecia. A seguir, as luzes tambm se apagaram e eles mergulharam na escurido.
	No fez isso de propsito, fez?  indagou Cheyenne, com um suspiro.
Ela o ouviu rindo, o som prximo demais para seu gosto. Na escurido, o hlito dele lhe atingia a pele em ondas clidas.
	Quando marco um encontro romntico, geralmente fao algo mais sutil do que olhar para a fotografia de um homem morto pouco antes de apagar as luzes.
Que tipo de encontros romnticos ele marcava? Talvez devesse perguntar em algum momento, estritamente para o artigo na revista, claro, e por nenhum outro motivo.
Cheyenne tentou manter o raciocnio no problema imediato.
	Era o que eu temia. Ento, foi a tempestade.
	Tenho certeza de que muitas pessoas concordam com voc.  Grant ficou imaginando por que o gerador auxiliar no havia sido acionado ainda.
Precisando de apoio, Cheyenne tateou pela borda da escrivaninha antes de levantar-se. Ao afastar a cadeira, bateu em Grant.
	Ai!
	Desculpe-me  murmurou ela, e voltou-se na direo do gemido. Encostou em algo rgido... e ao mesmo tempo flexvel. Seu corpo, antes da mente, percebeu que era Grant. Engoliu em seco.  Oh... desculpe-me novamente.
Ele no lamentava. O contato momentneo entre eles fora estranhamente estimulante. Estranho. Ele podia ter qualquer mulher que quisesse, mas reagia como um adolescente s porque o corpo de Cheyenne roara contra o seu rapidamente na escurido.
Era jovem demais para estar passando pela segunda infncia e velho demais para estar ainda apegado  primeira. Mas algo diferente estava acontecendo. Concluiu que a tempestade dera-lhe a oportunidade perfeita.
Sorriu para si mesmo.
Tentando colocar alguma distncia entre eles, Cheyenne esbarrou em alguma coisa. Instintivamente, Grant ergueu os braos e conseguiu evitar sua queda, mas segurou-a pelos seios. Seu corpo todo reagiu febril e percebeu que ela prendia a respirao.
Grant soltou-a, embora no to rapidamente quanto poderia, percebeu. Uma sensao boa percorreu-lhe o corpo. Decidiu que era melhor fingir que nada havia acontecido.
	Precisamos arranjar alguma luz  comentou ele.  D-me a sua mo...  Estendeu o brao, mas s encontrou ar.
	Fique parado  ordenou ela. Frustrada e incapaz de bloquear as sensaes que a estimulavam, Cheyenne localizou o ombro dele e percorreu-lhe o brao at encontrar a mo forte.
	Tudo bem, achei sua mo. E agora?
	Agora, vamos tentar chegar ao corredor.  Grant estendeu a outra mo  frente e andou devagar at achar a porta, usando a parede para guiar-se.  H um gerador de emergncia que deveria ter sido ligado quando o primeiro caiu.
	Talvez ele no saiba que  de emergncia  gracejou ela.
	Sr. O'Hara?  Uma voz grave ecoou pelo corredor.
	Ora,  a cavalaria  murmurou Cheyenne, esfregando o queixo.
	Por aqui  chamou Grant.  Com esse nome, no pensei que estivesse vida pela cavalaria.
	Meu nome deve-se  cidade e no  tribo  observou ela.  Oh, veja, uma luz...  Tomando a frente, Cheyenne apressou-se na direo iluminada.
Encontraram Miles no meio do caminho com uma lanterna de bateria acesa e duas lanternas de pilha debaixo do brao.
	Encontrei algumas lanternas. Vocs esto bem?
	Melhor agora que est aqui.  Grant pegou as lanternas e entregou uma para Cheyenne.  O que houve com o gerador de emergncia?
O caseiro balanou a cabea.
	No sei, mas Jack est dando uma olhada. Foi sorte ele ter permanecido.  Lanou um olhar de desculpa para Cheyenne antes de voltar-se para Grant.  Tenho ms notcias. O jantar vai demorar, porque o fogo  eltrico. Alm disso, Sarah no est se sentindo bem e voltou para a cama.
	Otimo, ela precisa descansarcomentou Grant.  Quanto ao jantar...
	Tem ovos e uma frigideira?  perguntou Cheyenne ao caseiro.
Gostara de ver que Grant se preocupava mais com a sade da cozinheira do que com seu prprio conforto. Muitos patres reclamariam do inconveniente. Talvez Stan tivesse razo quanto ao amigo ricao, afinal.
Miles achou estranho uma convidada perguntar sobre utenslios domsticos.
	Sim, mas...
	E a lareira no  s de enfeite, ?  questionou Cheyenne, voltando-se para Grant.
	No, pode ter vrios usos, Est com frio? Quer que Miles acenda o fogo?
	No, no estou com frio, mas quero que ele acenda o fogo.  Ela esfregou a palma das mos, contente por poder fazer algo til. Detestava ficar  merc das circunstncias.  Cavalheiros, mos  obra. Miles, leve-me  cozinha e veremos o que posso fazer para o jantar.
O caseiro olhou para Grant, interrogativo.
	Ouviu a moa, leve-a  cozinha  instruiu o patro. Vou ver se Jack precisa de ajuda com o gerador.
Cheyenne pareceu surpresa.
	Voc vai sujar as mos?
Ele imitou a expresso dela.
	Voc vai cozinhar?
Ela inclinou a cabea, admitindo a derrota.
	Touch.  Ento, voltou-se para o caseiro e tomou-lhe o brao.  Vamos, Miles. Tenho um encontro com a frigideira e a lareira.
Grant sentou-se de pernas cruzadas sobre o assoalho diante da lareira. No colo, um prato elegante, feito para iguarias mais refinadas do que ovos mexidos e presunto.
Talvez devido aos perigos que haviam vivenciado naquele fim de tarde, talvez devido  fome mesmo, nunca saboreara refeio melhor. Cheyenne preparara comida suficiente para alimentar a todos na ilha.
A luz da lareira iluminava os cabelos dela com tons dourados. A pele tambm parecia brilhar como ouro. A viso o fez imaginar-se com ela novamente.
Grant serviu-se de mais uma poro.
	Isto est timo. Onde aprendeu a cozinhar?
A pergunta reavivou velhas lembranas de Cheyenne. Um restaurante decadente  beira da estrada em que se alternavam horrios de grande movimentao e perodos de silncio.
	Minha me trabalhava num restaurante quando eu era criana. Eu passava boa parte do tempo na cozinha com ela.
Grant notou que ela no o encarara ao contar o fragmento de histria.
	Ela lhe ensinou a cozinhar?
Cheyenne balanou a cabea, A me nunca ensinara-lhe nada. Exceto que entregar o corao facilmente s trazia dor e decepo.
No, foi Miguel quem me ensinou.
Seria o nome de um antigo amante? De algum com quem ela vivera?
	Miguel?
	O cozinheiro do restaurante.
Cheyenne sorriu ao lembrar-se do medo que Miguel lhe provocara quando o vira pela primeira vez, aos sete anos. Lembrando um monstro srio, ele tinha no rosto uma enorme cicatriz vermelha que nunca sarara completamente. Diziam que ele a ganhara numa briga entre gangues. Mais tarde, soube que ele na verdade se ferira ao salvar a irm ainda beb do incndio que ceifara as vidas do resto de sua famlia.
	Ele era baixo, atarracado e asustador  descreveu.  Em compensao, era capaz de discutir qualquer assunto com qualquer pessoa. Esporte, poltica, culinria... E gostava de mim.
Grant identificou o carinho no tom de voz.
	Parece ser uma boa pessoa.
Miguel a convencera a no fugir de casa. E transmitira-lhe inmeros ensinamentos enquanto ela fazia a lio de casa sentada num canto da cozinha. Considerava-o seu nico amigo que tinha, embora ele a houvesse repreendido por pensar assim.
Cheyenne aproximou os joelhos do rosto e contemplou as chamas na lareira. Tomou um gole do vinho e sentiu o lquido escorrer pela garganta, aquecendo-a. Grant O'Hara providenciara o nctar para o jantar.
	Ele era, sim...
Grant largou o prato na mesa e aproximou-se dela.
	Onde ele est agora?
	Eu no sei... perdi o contato depois que ele saiu do restaurante. Discusso com o proprietrio.
	Por favor, no v, Miguel. O que vou fazer sem voc?
	Voc no precisa de mim, querida. Vai ficar bem. Voc  forte, pode seguir em frente sozinha.
Ela suspirou e afastou as lembranas.
	Gosto de pensar que ele est melhor em algum lugar.
Grant pegou uma mecha de seu cabelo e ancorou-a atrs da orelha, lutando contra o desejo de lamb-la.
	E sua me. Ainda trabalha l?
Cheyenne suprimiu o arrepio que o toque de Grant provocara e continuou a fitar o fogo.
	No. Comprei um pequeno apartamento para ela em San Francisco. Acredito que esteja feliz...  Sua leve risada acompanhava-se de tristeza.  Provavelmente, ainda  procura de um homem.
Grant observava fascinado a tenso em seu maxilar.
	Provavelmente? Voc no sabe?
Cheyenne encolheu os ombros.
	Ns no mantemos contato.
Pior para a me, pensou ele.
	E quanto a voc?
Ela voltou-se para encar-lo. No entendera bem a pergunta.
	Quanto a mim... o qu?
Grant detestava perguntas sobre sua vida pessoal, mas no conseguia conceder a Cheyenne a privacidade que tanto prezava. Queria saber. Naquela noite, com a tempestade, com a luz do fogo iluminando-a, queria saber tudo sobre ela.
	Voc no est procurando um homem?
Ela pensou antes de responder, examinando a conscincia.
	Sim, estou procurando  admitiu.  No de forma ativa, mas estou deixando as opes em aberto.  Sorveu mais um gole de vinho antes de continuar:  Se ele aparecer, timo, se no... bem, no preciso de um homem para ser completa.
No, Grant via que ela no precisava. Miguel, fosse quem fosse, era o responsvel por torn-la uma mulher auto-suficiente.
	Fotgrafa, cozinheira, detetive amadora... Diria que voc  muito completa.
Cheyenne fitou-o. Havia um sorriso disfarado no belo rosto msculo. Sentiu um n no estmago.
	Voc est se divertindo  minha custa.  Pousou a taa de vinho no cho a seu lado. - E acho que j bebi demais.
Grant franziu o cenho, confuso.
	 s a sua primeira taa.
Ela estabelecera a regra de nunca beber. Aquela noite fora uma exceo.
	Mas j estou me sentindo tonta.
Ele passou o dedo em seu rosto.
	Voc me parece bem...
	Isso  o meu rosto, no a minha cabea.  Ela riu e afastou-lhe a mo. Ou tentou. De algum modo, seus dedos ficaram entrecruzados.
	Voc inteira me parece muito bem...
Pararam de respirar por alguns segundos. Seus olhares se encontraram. Cheyenne desviou o rosto, sabendo que, se no o fizesse, estaria perdida. Era mais seguro conversarem.
	Ento, voc vem aqui com frequncia?  indagou.
Ela estava com medo dele ou da situao? Ou havia algo mais em jogo ali, algo que ele no estava percebendo?
	No o bastante.
	Miles disse que voc no traz mulheres aqui. Por qu no?
Grant deu de ombros.
	Este  o meu retiro, venho aqui para me livrar de tudo. Gosto de ficar sozinho aqui. Na maior parte do tempo, tenho gente demais ao meu redor.
	Mas voc me trouxe aqui.  Incapaz de deter-se, ela voltou a encar-lo.
	Porque estava sendo perseguida  justificou ele.  Este foi o lugar mais seguro em que pude pensar.
L fora, o vento forte parecia um choro de mulher. Uma chuva rebelde aoitava as vidraas.
	No me parece muito seguro.
Um instinto natural e to antigo quanto o tempo fez com que Grant lhe envolvesse os ombros com o brao.
	A ilha  segura. Jack e eu colocamos o gerador para funcionar.
Cheyenne olhou ao redor. Exceto pelas velas e lareira, a casa estava totalmente s escuras.
	Ento, por que no acendem as luzes?
Grant concentrava-se em seus lbios. Havia um desejo crescendo dentro dele, uma necessidade que no sentia havia muito. Precisava beij-la, senti-la ardente e desejosa. Precisava dar e receber prazer.
	Porque temos a hxz da lareira. Achei que devamos poupar energia, caso venhamos a precisar mais tarde. Alm disso,  mais romntico...
Cheyenne sabia que deveria afastar-se dele naquele instante, enquanto ainda era possvel. Mas, por algum motivo, no conseguia forar-se a isso.
Parece um desperdcio, no acha?
Ele passou o dedo sobre o rosto dela e observou o desejo surgir nas pupilas.
	No, no acho...
O que estava fazendo consigo mesma? Por que no se levantava?
	Grant, no estou fazendo a entrevista para a revista.
Ele tentou lembrar-se da ltima vez em que uma mulher o excitara tanto. No conseguiu. Nenhum nome, nenhum rosto voltou-lhe  mente. S enxergava Cheyenne.
	Isto vai ficar fora dos arquivos...
Ela sentia os lbios dele tocando-lhe o rosto, mais uma sensao que no conseguia descrever tomando conta de seu ser. Tratava-se de algo mais quente, mais urgente e exigente do que aquela que a tomara quando ele a beijara da primeira vez.
	No acho que seja uma boa ideia, O'Hara.
	Chame-me de Grant.  Ele tomou o rosto dela nas mos, emoldurando-o, absorvendo o prazer casual.  Eu aviso se pensar em algo melhor  prometeu, inclinando o rosto para juntar seus lbios.

CAPITULO SETE

Estava acontecendo novamente, s que mais rpido dessa vez. Mergulhando no beijo, Cheyen-ne sentia o corao disparado, a cabea girando, sensaes prazerosas com as quais se deleitava em separado, uma a uma.
E cada parte de seu ser implorando por mais sensaes.
Embora o fogo na lareira ainda queimasse fulgurante, o mundo, tal qual Cheyenne conhecia, desaparecera, e ela se precipitava de cabea numa escurido aveludada que lhe tomava todos os sentidos.
No existia mais nada, nem tempestade, nem falta de energia, nem casa. Nada alm de Grant e aquela sensao deliciosa e envolvente que ele criava s com os lbios.
Loucura. Nada menos que loucura total. No havia outra palavra para descrever o que Grant sentia. Impossvel relatar sua reao em ter aquela mulher em seus braos. Queria experiment-la, toc-la, absorver seu perfume, incorpor-la a seu sistema at que no houvesse mais nada nem ningum alm dela.
Estava assustado.
Nunca sentira nada igual antes. Nunca se vira consumido por aquela fome insacivel por uma mulher, sem espao para mais nada alm do desejo. No imaginava o que tinha Cheyenne Ta-rantino para deix-lo daquele jeito. J no tinha capacidade nem lucidez para analisar o que estava acontecendo e por qu.
Raios, s lhe restava segurar-se e manter-se firme naquele barco que avanava a uma velocidade alucinante.
Agarrou Cheyenne pela cintura e subiu as mos at atingir os seios. Permitiu-se sentir a carne macia.
Ela buscou ar, sem flego, e isso quase o enlouqueceu. Era tudo o que podia fazer para no liberar o desejo ardente e urgente que ameaava domin-lo e tomar o controle.
Mas o que estava acontecendo? O que ela estava fazendo com ele? Excitando-o daquela maneira, como se ele no tivesse controle, como se no conseguisse dominar seus sentimentos com a razo?
O fato era que a queria, inteira, sem restries. Queria-a totalmente devota e carinhosa. No faria, no poderia fazer, por menos.
Grant cobriu-a de beijos sedentos at deix-la trmula de desejo.
Mas ele tambm se abalou.
Cheyenne gemeu quando ele invadiu sua boca com a lngua, acariciando-a de forma ntima, absorvendo seu sabor. Quando ele se apoderou de seu corpo, arqueou-se, derretendo-se contra ele, deixando que as chamas consumissem seu ser, entregando-se.
Moldando-se.
Uma guerra deflagrou-se dentro de Cheyenne. Uma guerra entre o desejo e a razo, entre a realidade e a necessidade urgente de acreditar na fantasia. De acreditar que aquilo a levaria a algum lugar alm daquela noite. Queria sentir, oh, queria to desesperadamente sentir a extenso de sua habilidade, no importavam as consequncias.
Nunca se sentira assim antes, no daquele jeito, como se estivesse isolada no olho de um furaco.
Nunca me senti desse jeito em relao a nenhum homem, Annie. Ele me faz sentir especial. Maravilhosa. Acho que  a ele que eu estou esperando.
As palavras da me ecoaram na mente de Cheyenne, interrompendo tudo como uma faca de serrinha deslizando sobre a manteiga.
Trmula, desorientada, Cheyenne afastou a cabea, embora mantivesse as mos sobre os braos de Grant. Se se soltasse naquele instante, desabaria envergonhada, sem foras, at parecer uma poa de fluido incandescente sobre o assoalho.
Tentou normalizar a respirao, mas falhou.
 Acho que est ficando quente aqui...  murmurou, ofegante.
Grant tambm achava.
Podemos ir para outro lugar...  Grant deu-lhe um beijo no pescoo, ento outro, e outro. Podia sentir a intensidade das emoes de Cheyenne. Seu prprio interesse aumentara tambm.
Cheyenne sentia a cabea girando. Queria tanto aquele homem que mal podia respirar. Mas fizera uma promessa a si mesma, jurara que no seguiria os passos da me, que nunca entregaria seu corao a nenhum homem antes que ele se entregasse primeiro. E no entregaria seu corpo antes que ele se comprometesse no apenas por uma noite, mas por uma vida.
E Grant no dissera nada. Por que diria? Tratava-se de Grant O'Hara. O dinheiro e a posio falavam por ele. No tinha que se comprometer, bastava acenar.
Por que no havia ar em seus pulmes? Era como se conclusse uma maratona num planeta sem oxignio.
	Podemos tambm ficar aqui e esfriar  sussurrou ela, desejando imprimir fora s palavras.
	No acho possvel...  Grant no podia se imaginar mais distante do estado de frieza. E ela tambm, a julgar pelo rosto ruborizado e a respirao ofegante.
Mas via a resistncia nos olhos azuis dela, a batalha silenciosa que se travava em seu ntimo. Ou porque algo inusitado lhe acontecia, ou porque a simples existncia daquele sentimento o enervava, Grant desistiu mais facilmente do que faria caso soubesse onde estava pisando.
Com outra mulher, ele teria usado de persuaso, de um pouco de provocao, e continuaria o jogo que iniciara. Diante de Cheyenne, porm, ergueu as mos e liberou-a.
	Tudo bem  declarou, tentando controlar as emoes que o assolavam.  Nunca forcei mulher alguma a nada e no pretendo comear agora. Embora, moa, voc realmente me deixe com vontade disso  acrescentou, com um sussurro rouco, enquanto passava a mo pelos cabelos loiros.
Respirando fundo, Grant recomps-se. Por um momento, ele mesmo no se reconhecera. Todo aquele fogo, toda aquela paixo e falta de razo...
Recostou-se no sof, cansado at para levantar-se do cho, e voltou-se para a reprter.
Corrija-me se estiver errado, mas voc no queria isso tanto quanto eu?
Ser que um dia voltaria a recuperar o flego?, perguntou-se Cheyenne. No podia encar-lo, no ainda. No confiava em si mesma fitando aqueles olhos, aquela boca, sem se render. No a ele, mas ao prprio desejo. Esse realmente a assustava.
	No sei  murmurou, a mente ainda nebulosa.  Qual era o tamanho do seu desejo?
Ele a julgara mal? Sentiu a raiva aflorar, intensa como os sentimentos de pouco antes.
	Voc quer que eu descreva? Que implore?  isso?
Ela percebeu a irritao na voz, ele mal conseguia suprimir a raiva. Aquilo lhe trouxe fora e determinao. Havia fria nos olhos azuis quando ela se voltou para encar-lo.
	No, no quero que implore. No quero que faa nada, muito menos que me beije.
	Com certeza, no parecia assim h um minuto.  Controlando a irritao, Grant soltou um suspiro.
O que estava acontecendo? Ele era o mais controlado dos O'Hara, o membro mais distante, calmo e conciliador. Naquele momento, parecia-lhe que todo seu dom conciliatrio fora para o espao.
	Que bela noite de npcias, hein?  E riu ante a pergunta retrica.
Cheyenne retraiu-se, sentindo-se, por um breve momento, a criana que um dia fora. E odiou Grant por faz-la se sentir assim.
	Desculpe-me se no correspondi s expectativas.
 No s expectativas. Aos desejos...
A simples presena dela o compelia a se ajoelhar e implorar como um cozinho treinado. A expectativa pelo que viria estimulava-o, deixava-o atnito, subjugava-o e transformava-o. Olhou para ela, estudou seu rosto, avaliou sua prpria reao e tentou entender o que estava acontecendo, mas no conseguiu concluir nada.
Meneou a cabea, desconsolado.
	Voc  diferente, Cheyenne Tarantino. No posso definila. No  provocativa, mas no  fria, tampouco.  S um repente de raiva o levaria a essa concluso. Sabia que ela no o estava conduzindo. Deu uma risada.  Voc envia sinais to confusos que companhias telefnicas se debruariam em seus projetos e manuais para encontrar o problema.
Cheyenne mordeu o lbio inferior, pensativa. Ainda sentia o gosto dele nos lbios. E, se fechasse os olhos, sentiria de novo a presso daquela boca ao introduzir a lngua intimamente...
Talvez lhe devesse uma explicao.
	Desculpe-me, Grant. E que fiz uma promessa a mim mesma h muito tempo.
	Que promessa? De enlouquecer os homens?
	No.  Cheyenne olhou-o incrdula. Ela o levara  loucura? Talvez fosse banal, mas sentia conforto em pensar que ele se afetara tanto quanto ela.
Cruzou os dedos e ficou olhando para o fogo. Abriu a boca e deteve-se. No, no contaria desse jeito, com o olhar desviado. Ele pensaria que ela estava envergonhada de sua deciso, mas no estava. S porque no era fcil mant-a, no significava que lamentava a deciso.
Forou-se a encar-lo.
	Colocando de forma simples, eu decidi aguardar.
Grant no entendeu.
	Aguardar? Aguardar o qu?
No era fcil dizer, percebeu. Havia um estigma nessa questo. J fora ridicularizada por seus sentimentos antes.
	At me casar.  Ela no lhe deu a chance de protestar e pronunciar o bvio, embora pudesse v-lo tentando completar a frase.  Casar-me de verdade. Comprometer-me seriamente tal qual a frase "at que a morte os separe".  A emoo surgiu na voz.  No quero uma noite fugaz, ou um caso de seis meses, ou um relacionamento de dois anos. Eu quero uma unio para sempre.
Grant mantinha-se em silncio, intrigado com a paixo nos olhos azuis dela.
	 um objetivo difcil.
	Talvez, mas  o meu objetivo e tenho que me prender a isso...  Ela elevou os joelhos e pousou o queixo sobre eles.
Concentrada no fogo, a atitude desafiadora evaporou-se.  No importa o que possa sentir em um determinado momento...
 O resto foi mais fcil de dizer sem olhar para ele.  Vi minha me se desesperar sempre que um homem a deixava.
Assisti  desintegrao dela at que, ao final de alguns anos, nada mais restava. Ela no tinha mais vida porque nenhum homem se afeioava a ela o bastante para ficar.
Cheyenne sentiu as lgrimas aflorando e piscou, irritada com a emoo espontnea.
	Ela se entregou a cada um deles... um tipo de amor desesperado. Entregou a alma e o corpo. S para faz-los ficar. Eles sempre partiam.  Anita Tarantino fora uma mulher bonita, antes que o mundo e os homens de sua vida a exaurissem antes do tempo. Aquilo sempre lhe parecera um terrvel desperdcio.  Eu no sou assim  afirmou, veemente.  No vou entregar meu corpo em troca de uma companhia temporria.
Ela ergueu a cabea e encarou-o.
	Quando eu finalmente me entregar a uni homem, vai ser para valer. E no espero menos dele  declarou suave, mas determinada. Ento, com um suspiro, levantou-se.  O que tem em mente sem dvida vai me trazer divertimento, mas no  o que quero a longo prazo, por isso, no h motivo para continuarmos.
Vendo-a tomar o rumo do quarto, Grant agarrou-lhe o pulso e se levantou. Fitou-a detidamente. Teria entendido bem? Era difcil acreditar. Cheyenne era uma moa bonita, sofisticada e inteligente. Alm disso, estavam s portas do sculo vinte e um. Seria ela virgem?
Ergueu a mo quando ela fez meno de protestar.
	Deixe-me ver se entendi. Nunca fez amor com um homem antes?
Ela acertara. Grant O'Hara era como todos os outros, fazendo-a sentir-se como uma aliengena por no achar o sexo casual to comum quanto dizer ol.
	No foi o que acabei de dizer?  rebateu, irritada por ser ridicularizada, irritada consigo mesma por ajud-lo a coloc-la nessa situao.  Quer que eu afague o seu ego? Tudo bem, considere-o afagado. Nunca me permiti ir to longe quanto
agora h pouco e, se j houve um homem por quem eu desistiria de meus princpios, ele  voc.  Mas, por tudo o que era sagrado, no seria naquela noite. Desvencilhou o pulso.  Pronto, est satisfeito?
Grant riu, atnito ante os fatos inacreditveis: a lisonja, a virgindade e o fato de ele ainda quer-la mais do que tudo no mundo.
	Estou longe de me sentir satisfeito agora, Cheyenne. Voc obviamente no tem muita experincia com homens frustrados. Ento, se quiser expandir a sua educao, sugiro que d uma boa olhada.
Ento, ele sorriu-lhe como quem entendia, apesar da dificuldade. Ele entedia e a admirava.
Fitando os olhos azuis de Cheyenne, Grant sentiu o desejo retornar. Acariciou-lhe o rosto com as costas da mo.
	Voc est falando srio, no est?  perguntou, gentil.
Ela esforou-se para no entregar-se  carcia.
	Posso coloc-lo em contato com Jeff Dolan, se quiser.
	Um pretendente rejeitado?
	Algum por quem acreditei estar apaixonada. Ele era muito atencioso, gentil e cavalheiro.
	Eu j o odeio.
	No gaste a sua energia. Ele achou que dois meses sendo sir Galahad o habilitavam a uma noite de sexo no banco de trs do carro.
	Sir Galahad virou sir Polvo?
	Algo assim. Descobri depois que era tudo um plano bem bolado. Os amigos apostaram que ele no conseguiria dormir com a virgem da classe. Ele ficou aborrecido quando perdeu.
 Cheyenne deteve-se.  Est me olhando como se eu devesse estar numa redoma de vidro.
	No. Talvez num pedestal, mas no sob vidro,  Ele entendia a tentao que Nolan devia ter sentido. Era raro hoje em dia ser o primeiro homem na vida de uma mulher. Algo raro e especial.  Voc sabe que esse assunto  muito delicado para um homem...
Cheyenne refletiu. Estaria ele falando de si mesmo? No, duvidava disso. Se havia algo, agora que contara-lhe, era que ele a achava uma singularidade: um elefante branco.
	Na sua idade, voc j deve ter criado muitas expectativas sobre muita coisa  explicava ele.  Os homens pensam nisso. E se ele no corresponder a essas expectativas? O que acontece com sua parte mais frgil... com seu ego... nesse caso?
	No  algo com que tenha que se preocupar  assegurou Cheyenne.
	Por que no? Afinal, sou seu marido.
	S at o amanhecer. Est mais parecendo um conto de fadas, no ?
	Uma bela virgem inatingvel. Uma tempestade envolvendo o castelo. Um prncipe da indstria cansado e miseravelmente triste  resumiu Grant.  Sim, diria que temos todos os ingredientes necessrios para um conto de fadas melhor do que a mdia.
Curiosa, Cheyenne viu no comentrio um material para sua entrevista.
	Fale-me mais sobre esse prncipe cansado? O que o entristece?
Ela lhe contara algo particular e ele achava justo que ela tivesse o mesmo.
	Tentar encontrar a mulher certa.
Cheyenne estava espantada. Ele j lhe dissera isso e ela no acreditara nele mais do que naquele momento.
	Oh, vamos, voc vive cercado de mulheres.
	Eu disse a "mulher certa", no uma legio de mulheres.
Embora tivesse que admitir que encontrar a mulher certa tambm era assustador. Isso significaria mudar sua vida, reescalonar prioridades. Estaria mesmo pronto para isso? No tinha certeza.
	Engraado, parece que temos algo em comum.
	No vai me dizer que tambm  virgem?
Grant riu tanto que quase engasgou.

	No, j tive as mais belas mulheres. Gosto do perfume feminino, do toque delas, do jeito convidativo como me olham. Alis, voc tambm tem esse olhar.
	No tenho, no.
	Acredite em mim, est l. Esteja voc ciente, ou no. Mas estvamos falando de mim, no de voc. Acho que as mulheres so criaturas fantsticas, maravilhosas. Mas, quanto a partilhar minha vida s com uma... temo no t-la encontrado ainda. E, como j lhe disse, no quero acabar como meu pai. Ento, de certa forma, somos parecidos. Nenhum de ns quer repetir os erros de nossos pais, e ambos estamos procurando algo duradouro. A nica diferena  que voc no entrou na padaria nem mesmo para ter uma amostra.
	Enquanto voc pegou todas as amostras que conseguiu.
	Est me dando mais crdito do que mereo.  Ele riu.  Se tivesse feito amor com todas as mulheres que cruzaram o meu caminho com um sorriso de flerte, eu j estaria morto. Enterrado com um sorriso no rosto, mas, garanto-lhe, morto.
Cheyenne deveria estar sentindo repulsa, no atrao, pensou. Mesmo assim, sentia-se encantada. Provavelmente, como ele planejara.
Desculpe-me, no funcionou, pensou ela. Vou dormir sozinha esta noite. Ainda que tenha que me trancar no armrio para nos manter separados.
De repente, ciente de algo totalmente diferente, Cheyenne ergueu a mo.
	Oua.
Grant no ouvira nada e olhou ao redor.
	O qu?
	Nada  respondeu ela, animada.  Nenhum assobio de vento. Nada. Acha que a tempestade passou?
	Na verdade, acho que s acalmou um pouco.
	Mas oua, no h mais nada...  Ela interrompeu-se ao ver o brilho nos olhos verdes dele. Esforando-se para manter o raciocnio, comentou:  Gostaria de tirar algumas fotografias amanh cedo, antes de partirmos.
	Como queira.  E gostaria que voc quisesse a mim, acrescentou, silenciosamente.  Est ficando tarde e, se no deix-la ir agora, posso ficar tentado a faz-la mudar de ideia.
Cheyenne sabia que s ele poderia fazer isso e ficou grata por ele no tirar vantagem desse fato. Beijou-o no rosto.
	Obrigada. At manh. Durma bem.
Grant soltou um suspiro cansado e observou-a afastar-se. Tocou o local onde ela pousara um beijo. Durma bem?
	Sem chance  resmungou consigo mesmo.

CAPITULO OITO

Para Grant, a noite parecia interminvel. O sono, se podia consider-lo assim, acontecia em parcelas curtas. Cada vez que acordava, sentia-se mais cansado do que no dia anterior.
Por causa do sonho.
Sempre que adormecia, sonhava com ela, com Cheyenne, e com um casamento que no acontecera. Nessas npcias, ela aparecia no com a fantasia de veludo verde-escuro, mas com um vestido de noiva tradicional. Um vestido branco, longo e justo que lhe destacava o corpo escultural e refletia a luz das velas na igreja.
Quando a beijou, sem esperar a permisso do pastor, Grant sentiu a alegria irradiar-se promovendo a mistura perfeita entre excitao e paz. O beijo convenceu-o de que no era apenas um sonho, pois sentia exatamente o mesmo que sentira junto  lareira. Sentia-se vivo, estimulado e pronto para enfrentar o mundo todo.
Ento, tudo desapareceu num piscar de olhos. Os votos, a igreja e Cheyenne, tudo se fora. Estava sozinho novamente. Sozinho na cama.
Sozinho na vida.
Grant despertou espantado e sentou-se na cama, sentindo um vazio esmagador no corao. Tinha o corpo coberto de suor, a boca seca, e sentia a pulsao acelerada. Olhou ao redor, reorientando-se.
Estava em sua casa na ilha. Em sua cama. Cama que ficava a meio corredor da cama dela.
Mas ela poderia estar do outro lado da lua que a distncia seria a mesma, pensou, sombrio. Mesmo com os efeitos do sonho ainda presentes em seu corpo, no estava preparado para ir ao quarto dela.
Ainda estava escuro l fora. Recostou-se contra a cabeceira e soltou um suspiro.
Fora um sonho. Mais nada, somente um sonho.
A qualquer momento, a pulsao e a respirao voltariam ao normal. A qualquer momento. Raios.
Praguejando contra si mesmo, socou o travesseiro e desafiou o sono a subjug-lo mais uma vez.
Ao adormecer, sonhou com ela e com o casamento mais uma vez.
No final, sentia-se como Ssifo, condenado a empurrar uma pedra enorme encosta acima, s para v-la rolar e ter que recomear o trabalho mais uma vez, e outra, por toda a eternidade. As cinco da manh, desistiu de dormir e foi para a cozinha, mais disposto a mastigar gros de caf do que a prepar-lo da forma tradicional.
Descobriu que no fora o primeiro a se levantar.
Suprimindo um palavro, passou a mo pelo cabelo. Precisava muito mais de caf do que de um banho. Ali, olhando para as costas de Cheyenne, percebeu que precisava de tudo.
	O que est fazendo aqui?  grunhiu, antes que pudesse se controlar completamente.
Cheyenne aplacou a onda de reaes nervosas que surgiram de repente, respirou fundo, e olhou rija por sobre o ombro.
	Estou fazendo caf  respondeu.  A luz voltou  informou, com descontrao forada.  A gente no percebe o quanto  dependente da eletricidade at que fica sem ela.
	No precisa fazer isso.  Grant foi at a bancada solitria no meio da cozinha.  Miles e Sarah podem...
	Sarah provavelmente ainda est doente e Miles, sem dvida, est dormindo a esta hora. Alis, estou surpresa em v-lo.
	No conseguia dormir  resmungou ele, e sentou-se numa banqueta. Respirou fundo. O rico aroma do caf despertava-lhe a vontade de sorver o lquido. Isso e o cheiro sensual dela. Pigarreou, desejando poder limpar os pensamentos de forma to simples.  O caf j est pronto?
	Quase.  O fio de lquido escuro afinou-se e finalmente parou de cair na jarra de vidro. Cheyenne pegou a cafeteira e despejou a bebida numa xcara para ele. Notou seu semblante cansado.  Parece mesmo que andou numa festa a noite toda... Grant segurou a xcara com as duas mos como se, de algum modo, pudesse transferir a cafena diretamente ao sistema circulatrio, Ficou imaginando se ela estava dizendo-lhe, de forma educada, que ele estava horrvel. Com certeza, sentia-se horrvel.
Pior. Dormi... e sonhei quase que o tempo todo.
Cheyenne sabia como era isso. Serviu-se de caf, ento acrescentou leite at que a mistura tomasse a tonalidade marrom-clara.
Acomodou-se na banqueta ao lado dele.
	Algum sonho especial? Ou se esqueceu dele assim que despertou?
Ela no se esquecera do seu. O sonho assombrava-a, tanto que ela at tivera medo de voltar a dormir.
	No, no me esqueci.  Na verdade, o sonho parecia tornar-se mais intenso e vvido  medida que despertava.
Reparou, satisfeito, que Cheyenne usava uma de suas camisas velhas com as pontas amarradas  cintura. Gostava da ideia de suas roupas tocando-lhe a pele... quase tanto quanto gostava da ideia de toc-la ele mesmo.
Depois daquela noite, ela se mantinha ciente do jeito como Grant a olhava. Agora, percebia uma expresso estranha em seu rosto.
	Encontrei isto no armrio  explicou, mostrando a camisa.  Espero que no se importe. Cai melhor do que a blusa de Sarah. At dormi com isto  confessou, e acrescentou rpido:
 Eu vou mandar lavar e lhe devolvo.
Grant ficou imaginando se o cheiro dela permaneceria na trama. A ideia de vestir aquela camisa com a presena dela excitou-o.
	No precisa. Eu tenho outras.
Cheyenne sorveu um pouco do caf.
	Velhos hbitos  admitiu ela.  Ns tnhamos que cuidar de tudo o que possuamos. Se algo fosse perdido, levaramos algum tempo para substitu-lo...
Como as botas de borracha que perdera certa vez na escola, pensou. De algum modo, elas tinham se misturado s outras botas na ante-sala. Na hora de ir embora, s restara um par velho e com buracos na sola. Passara o resto da primavera molhando os ps toda vez que chovia. E chovera bastante naquele ano.
	Vocs eram muito pobres?  perguntou Grant.
Havia gentileza e simpatia na voz dele. Teria sido fcil responder, teria sido fcil aceitar a oferta dele. E talvez devesse. Mas no queria a comiserao dele. Tinha uma vida boa agora. No precisava da pena de ningum.
	Pobres o suficiente  respondeu, descuidada.  Ento, com o que sonhou para ficar com essa aparncia cansada?
Sabia que Cheyenne estava deliberadamente mudando de assunto. Ele mesmo fizera muito disso para saber quando erguiam o sinal de "no ultrapasse".
	Estou to horrvel assim?
	J esteve melhor  considerou ela.
Grant ia dizer uma mentira, mas descartou-a. Estava curioso em saber como ela reagiria  verdade.
	Sonhei com voc.
Cheyenne demonstrou espanto, depois, desconfiana.
	Comigo?
	Sim, com voc. Conosco, na verdade  esclareceu.  Estvamos nos casando. Desta vez, oficialmente.  Acabou o caf e levantou-se para pegar mais.  Numa igreja.
Ele encheu a xcara e voltou-se para servi-la. Ela estava plida. Preocupado, largou a jarra e foi at ela.
	O que foi?
Piscando, clareou a viso e balanou a cabea devagar.
	Nada. Estou tima.  s que...  Ora, como dissera aquilo?
	S que, o qu?  Ele quase agarrou-a quando ela no completou. A ansiedade eliminara sua pacincia.
Aquilo era bizarro, realmente bizarro, concluiu Cheyenne. As pessoas simplesmente no tinham o mesmo sonho ao mesmo tempo, a no ser em histrias de fico cientfica ou experimentos com hipnose. Mesmo assim, o que ele lhe contara, sem perceber, era que tivera o mesmo sonho que ela.
	S que o qu?  repetiu ele.
Cheyenne parecia a ponto de desmaiar.
	Eu tive o mesmo sonho  confidenciou, quase num sussurro. Talvez no fosse o mesmo sonho, s a mesma situao.
 Ns estvamos nos casando novamente. Na igreja. Eu estava usando... um vestido branco longo que parecia captar a luz das velas... e brilhava  medida que eu me aproximava de voc. Depois, voc me beijou...
Como um homem sob efeito de um encanto, Grant completou a frase:
...antes que o pastor desse a permisso.
Cheyenne cobriu a boca com a mo, o raciocnio buscando freneticamente uma explicao.
Isso  muito estranho. Estranho demais.  Ergueu o olhar, desconfiada.  O que havia no vinho?
Ela no podia estar sugerindo que ele lhe dera algum alucingeno. Mesmo que ela tivesse tomado algo, no havia como prever com o que sonharia.
Uvas fermentadas  disparou ele. Num instante, acalmou-se. Ela provavelmente s estava nervosa, como ele mesmo.
Talvez os nossos sonhos estejam querendo nos dizer algo.
Cheyenne esforou-se para dar algum sentido a tudo aquilo, para imprimir lgica ao acontecimento. Sabia o que acontecia quando se analisava algo s a nvel emocional.
	Claro, estava nas nossas mentes. E normal. Quero dizer, ns dois estvamos na cerimnia ontem e ambos queremos resolver esta questo rapidamente.  Ela o encarou, esperando que ele concordasse com sua explicao. Qualquer outra coisa seria fantasmagrico.
	Sim, queremos, o mais rpido possvel  concordou ele.
Mas sabia que faltava convico na voz. Apenas aquilo parecia a explicao mais lgica. Mesmo assim... mesmo assim, uma fora maior que os dois tentava enviar uma mensagem. Talvez, por alguma razo, eles no devessem se apressar para desfazer a unio  qual tinham sido levados de forma to atabalhoada.
Com aquilo em mente, ele acrescentou:
Mas vai levar algum tempo.
S levara um minuto para assinar o documento. Por que era preciso mais tempo para desfazer um equvoco?
Ns no sabamos que estvamos assinando um documento legal  protestou ela.
Ele encolheu os ombros.
Mesmo assim, vai levar algum tempo. A lei  vagarosa.
Cheyenne comeou a ficar desconfiada novamente. Levantou-se e, com a caneca vazia na mo, foi at a pia.
	O que sugere?
	Nada  respondeu Grant, acompanhando-a.  Resta um sentimento.
Cheyenne voltou-se para a torneira e lavou a caneca
E qual  esse sentimento?
Ele olhou para ela. No havia como negar a atrao que sentia.
Eu a quero, Cheyenne. Eu a quero muito.
Devagar, ela voltou-se para encar-lo. O desejo que identificara na voz deixou-a trmula. Esforou-se para repeli-lo como a qualquer outro homem.
Mas ele no era qualquer homem. Era algum que invadira seus pensamentos, seus sonhos, sua alma. Simplesmente, no conseguia dizer "no".
Desta vez, a tentao, no somente a vaga curiosidade, instigava-a, conduzia-a aos braos dele.  cama dele.
	Pois no pode me ter  declarou.  No sou apenas uma mercadoria que pode comprar no balco da farmcia. No sou s para uma noite, lembra-se?
	Lembro-me. Lembro-me de tudo o que disse. E de tudo o que senti. Eu ainda no sei por que, Cheyenne, mas sinto que estou tateando no escuro. Por algum motivo, sinto que... sinto que estou frente a algo de que no posso me desviar.  o meu destino, meu futuro...
	Seus hormnos  corrigiu ela, mordaz.  Apenas hormnios. De ambos.  Talvez ele s tivesse adivinhado sobre o sonho. No cairia to fcil. Os homens diziam qualquer coisa para levar uma mulher para a cama.  Oua, eu estou lisonjeada... muito lisonjeada...
Ele queria ouvir mais do que aquilo.
	E tentada?
Ela concedeu.
	Sim, e tentada, mas...
	Ento, por que no se entrega?
Eu j lhe disse por que no. E pensei ter ouvido dizer que nunca foraria nenhuma mulher a nada.
E nunca forarei. Mas no h nada dizendo que no posso usar de persuaso.
	Ou aproveitar-se injustamente.
Grant estreitou o olhar.
	Como assim?
	Porque... foi, simplesmente.
Ela estava to relutante quanto ele, tinha tanto medo de tudo aquilo quanto ele.
Oua-me, no vou dizer clichs como "isto  maior do que ns dois", embora algo esteja acontecendo e seja realmente maior do que eu. Olho para voc e a desejo tanto que chego a ficar assustado. No entendo o que est acontecendo, no posso nem comear a explicar, mas est l. Agora, ns estamos casados, legalmente, e voc disse que se daria somente a seu marido.  Censurou-se por despejar os fatos to cruamente, como um adolescente tomado pelos hormnios.  Ento, se alivia a sua conscincia...
Minha conscincia no tem nada a ver com isso  replicou Cheyenne.  O motivo para nunca ter ido para a cama com ningum no est relacionado a alguma regra moral ditada pela sociedade.  porque no quero me tornar emocionalmente dependente. No quero dar cada parcela de mim a algum que s vai me dar satisfao momentnea.
Ele meneou a cabea.
	No h nada de momentneo no que eu sinto.
Ela notou que ele no negou a palavra-chave.
	Mas  satisfao efmera,  luxria.
	Ainda no sei.
Exatamente como ela pensava.
Pois diga-me quando descobrir.  J ia se retirar quando lembrou-se que no poderia ir longe.  Jack pode me levar de volta? Quero ir  delegacia levar as fotos que tirei.
Grant quase se esquecera de tudo o que haviam passado, das fotografias, da tempestade, do acordo com Stan. S conseguia pensar em Cheyenne.
Era assim que seu pai se sentira toda vez que se apaixonara? Shaun CHara confundira luxria com amor, o mesmo erro de que Cheyenne o acusava naquele momento?
	E quanto s fotografias?
	Acabo de dizer...
	As fotografias que deveria tirar de mim  esclareceu ele.
	Vou dizer a Stan que a tempestade arruinou sua ilha como cenrio. Vamos deixar a entrevista para uma outra oportunidade... talvez, com outra reprter.

	No aceitarei mais ningum!
Cheyenne sorriu, irnica.
	E uma promessa, sr. O'Hara?
Ele nem se incomodou em responder. Ao invs disso, tomou-a pelo brao e conduziu-a para fora da cozinha.
Vamos acordar Jack.
	No precisa fazer isso, sabe  informou Cheyenne, pela dcima vez.  Sou perfeitamente capaz de ir  polcia sozinha.
	Ningum est duvidando de sua capacidade, Cheyenne. Mas acho que a minha manifestao, neste caso, far com que acreditem em voc mais rpido.
Manifestao? Que manifestao?
	Eu tenho as fotografias para me respaldar  protestou ela.
	Sabe melhor do que eu que elas podem ser adulteradas.
	E por que eu faria isso?
	Isso seria exatamente o que os policiais poderiam se perguntar. Mas eu tenho reputao  enfatizou Grant, sem convencimento.  Eles sabem que no tenho tempo para bobagens. E ela?
	Quer dizer que preciso de voc para que eles acreditem em mim?
	Voc precisa de mim para que eles acreditem em voc mais rpido  corrigiu ele.  Afinal, no pode ser to ruim ter-me a seu lado, certo?
Ele estava errado, pensou Cheyenne. A presena dele machucava e bastante.
Gostaria de agradecer-lhe por ter trazido estas provas, srta. Tarantino  disse o investigador Moreau.  O pessoal da limpeza encontrou o corpo hoje pela manh, mas a tempestade lavou qualquer evidncia que pudesse haver no local. Provavelmente, precisarei falar-lhe novamente. Onde posso encontr-la?
Aquilo era um problema.
Embarco num vo para Los Angeles esta noite...  comeou ela.
Mas Grant interrompeu-a.
	Ela vai estar no Hotel Majesty, quarto 2111.  Impedindo Cheyenne de protestar, justificou:  Voc ainda no acabou a sua reportagem.
	Pensei que havamos concordado em adiar.
	S voc concordou. Alm disso, precisa ficar. Voc  testemunha. No pode largar esse caso assim, pode?  Ele olhou para o detetive Moreau.  Certo, detetive?
	Isso mesmo.  O oficial percebeu que algo se passava entre os dois, mas estava cansado demais para analisar a situao.  Ns manteremos contato, srta. Tarantino. E obrigado novamente por ter vindo. Ao senhor tambm, sr. O'Hara.
	Foi um prazer  assegurou-lhe Grant.
	E agora?  indagou ela, assim que chegaram  calada.
 Devo pedir uma carona?
Grant a tomou pelo cotovelo e conduziu-a at o carro.
	Agora eu a levo para um caf da manh adequado.
	Voc no tem que trabalhar?
Ele mantinha um bom grupo assessorando-o e delegava muitas atividades.
	Decidi sorver o perfume das flores.
Cheyenne franziu o cenho. Duplo sentido.
	No  poca...
Ele deu de ombros.

	Estou adiantado. Nunca fui o primeiro em nada. O terceiro filho, o segundo na escola, esse tipo de coisa.  Olhou sonhador para Cheyenne.  Gostaria de ser o primeiro em alguma coisa, para variar...
	Na floricultura?
	Em qualquer coisa.
Mas no comigo, O'Hara, pensou ela.
Tudo bem  concedeu.  Vamos retomar a entrevista.
Que tal o ttulo: "Grant O'Hara. O dia seguinte  Mardi Gras"?
Est bom para mim.  Ele abriu a porta de passageiros.
Cheyenne entrou. Se no soubesse do que se tratava, diria que estava sendo cortejada.

CAPITULO NOVE

	Ento...  Cheyenne pousou a xcara de caf e fitou Grant detidamente.  Quer comear?
Ele fingiu apreciar o restaurante suavemente iluminado em que tomavam o desjejum. Aquela hora, havia mais funcionrios do que clientes. Preferia assim. Era mais ntimo.
Aqui mesmo?  Ergueu o canto do lbio, sedutor.  No prefere ir a algum lugar mais reservado?
Cheyenne tirou um pequeno gravador da bolsa e acionou-o, determinada a manter a conversa em nvel profissional... no importava o que sentia.
Sabe muito bem sobre o que estou falando. A parte escrita da entrevista.
Ele continuou sorrindo.
Tudo bem. O que quer saber?
Uma vez que aquilo fora ideia dele, ela iria tirar o mximo proveito. Inclinou-se para frente, um brilho no olhar.
Algo que no queira me contar.
Grant sabia o que ela queria dizer, s que iria se decepcionar.
No tenho o tipo de segredo que anima um pblico entediado, Cheyenne. Nenhum caso de escndalo sexual, nenhum empregado subornado para ficar calado. Nenhum comrcio ilegai. Os meus contadores nem so instrudos para burlar o fisco. Est tudo certinho.
At agora, no se mostrara mais acessvel porque, no fundo, era uma pessoa reservada e j vivia bastante exposto. Um homem tinha que ter assuntos s seus.
Ningum era to limpo, pensou ela. Cheyenne tateou o gravador, decidindo se deveria deslig-lo. No fazia sentido manter aquilo se ele no ia jogar limpo.
Acho que est interpretando mal o propsito desta entrevista, O'Hara. Estou fazendo uma reportagem especial sobre voc, no submetendo-o ao Vaticano para uma canonizao.
O olhar dele parecia despi-la da camada protetora com que se cercara. Era como um laser que ia direto ao corao, e ela no tinha certeza se podia proteger-se.
	Oh  divertiu-se ele.  Acho que j provei a ns dois que no sou nenhum santo.
	Tudo bem, j falamos do que voc no   concordou ela, esportiva.  Agora vamos descobrir o que voc .
Ele virou o jogo.
O que voc acha que eu sou?  Poderia ajudar, se ele soubesse as noes pr-concebidas que ela nutria.
Um filho de milionrio, presidente de sua prpria prspera empresa.  Cheyenne no acrescentou nenhum dos adjetivos que a atormentavam, como "sensual", ou "sexy". Tinha certeza de que ele j ouvira bastante daquilo. No precisava ouvir novamente dela.  Acertei?
Ele descartou a descrio como se no significasse nada, pensou ela. As pessoas trabalhavam a vida inteira sem nem chegar perto de ter o que ele tinha. Parecia que as pessoas erradas nasciam com sorte.
	Pelo padro de algumas pessoas, isso  muito.
Ele aproveitou a deixa:
	Mas no pelo seu padro.
	No estamos falando de mim e, sim, de voc.
Oh, mas eu gostaria disso. Devagar...  ele se interrompeu enquanto a imagem se formava em sua mente. Ento, percebeu a irritao dela.  Desculpe-me, foi um lapso momentneo. De volta  entrevista e  sua concepo limitada de minha pessoa.
Ele parecia estar se divertindo, pensou ela, e imaginou se ele estava provocando-a. Mesmo assim, insistiu, desejando que seus instintos a ajudassem a separar a verdade da fico.
Tudo bem, pode me corrigir. Diga-me algo para ampliar o cenrio, por assim dizer.  Cheyenne at ofereceu uma introduo:  Comece pela sua infncia.
Grant refletiu por um segundo, mas no se lembrou de muita coisa. Tendia a bloquear os fatos desagradveis e arquiv-los onde no incomodassem. Onde no pudessem atingi-lo.
Deu de ombros e serviu-se de bacon, ovos e molho.
No rne lembro de muita coisa. S de uma lista infindvel de colgios internos. Na verdade, no me lembro de ter sido muito criana.
Ela no pde evitar. Tinha que comentar.
Sabia que isso pode mat-lo?  Apontou para o caf da manh dele.
O dela consistia de trs fatias de melo, de cores diferentes, como seriam na natureza, mas nem sequer os tocara.
	Voc me encheu disso ontem  lembrou ele.
	Ontem, isso era a coisa mais fcil de preparar, dados os recursos limitados.
Cheyenne balanou a cabea. Pouco lhe importava a pssima alimentao de Grant O'Hara, que j passara da idade de ter bab. Mesmo que ele realmente precisasse de uma, no estava interessada na vaga. Retomou o tema da entrevista.
Por que uma lista infindvel de colgios internos? No foi um s?
Ele riu.
Esperava que voc no percebesse. Fui expulso de uma srie de colgios.  Fez uma pausa, sabendo que, se ela cavasse um pouco, logo descobriria a verdade.  Foram cinco  revelou.  Os diretores desses colgio no gostavam de individualidade nos estudantes e nunca me conformei em ser ovelha.
Cheyenne lembrou-se do que Stan comentara a respeito de Grant O'Hara: ele escolhera seu prprio caminho, diferente do de seus irmos.
Era a famosa ovelha negra?
Ele gostou do trocadilho, mas no era verdade.
No sou uma ovelha negra, Cheyenne. Sou a nica ovelha branca da famlia. Talvez com umas manchas cinza  concedeu. Pegou o caf.
Ela continuou pressionando.
Por que a sua prpria empresa? Por que no a de seu pai?  Pelo que sabia, assim seria mais fcil. Mas Grant no era o tipo de homem que gostava de coisas fceis. No sabia por que achava a caracterstica to excitante e sedutora.
Bem, por um motivo. Meu pai ainda  vivo e administra a empresa dele. Quero dizer, quando no est ocupado se casando...
Cheyenne notou o tom desdenhoso. O sentimento dele combinava com o que ela mesma nutria em relao  sua me. Talvez Grant estivesse certo. Eles realmente tinham algo em comum.
Por que no posar de herdeiro e esperar a sua vez?  indagou, curiosa. Para muitos, isso seria a atitude lgica.  Voc obviamente  o nico da famlia com senso para os negcios.
Grant riu da avaliao dela.
Eu provavelmente sou o nico da famlia com senso, ponto. Os meus irmos fizeram lobotomia h muito tempo, ou, pelo menos, mantm os crebros anestesiados.
Era uma declarao to amarga quanto triste. Tudo bem, se ele queria ir to longe, ela seguiria.
Anestesiados com lcool, drogas e sexo?
Ela o surpreendia. Ele acreditara que, dada sua personalidade, ela evitaria os tpicos obscuros.
Voc no mede palavras, no ?
Por que ele achava que ela mediria? O fato de ter a vida pessoal em suspenso no significava que tinha medo de ir atrs de histrias mais degradantes. Era jornalista, no uma freira enclausurada.
No, no meo  confirmou, com determinao. Tinha orgulho de seu trabalho, orgulho de seus instintos quando se tratava de conseguir uma histria e no permitiria que ningum menosprezasse isso.  Tudo bem, vou formular outra pergunta para voc. Por que no seguiu o mesmo caminho que seus irmos? Seria mais fcil.
Grant sorriu pensativo e sensual. A resposta confirmou o que Cheyenne previra sobre suas preferncias.
	Talvez eu no goste do que  fcil. Talvez o que me estimule seja o desafio.  Encarou-a.  Acho os desafios estimulantes. Alm disso, j aconteceu antes. O pobre menino rico, incompreendido, procurando sua identidade em cada convite para festas...
	Voc parece zangado.
Ele no queria ter revelado tanto e simplesmente encolheu os ombros, desviando o olhar.
Talvez.
Mas ela no o deixaria escapar, Pescara algo, pensou, s no sabia exatamente o qu.
Zangado com quem?
Tudo bem, ela queria saber, ele iria contar.
Com eles, com meus irmos. Com meus meio-irmos  esclareceu. Cada um de uma me diferente. Quase lhe parecia um jogo, s vezes, o pai tentando preservar o nome, plantando suas sementes em campos novos e mais frteis.  Eles esto  desperdiando suas vidas.
De repente, Grant percebeu que se desviara muito do tema, levando Cheyenne a um mundo s seu.
Mas a entrevista no  sobre eles, ?
Ela no queria deixar o assunto morrer ainda. 
Eles so parte de voc.
Houve poca em que tinham sido mais chegados, mas logo a camaradagem acabou. Agora, tinha menos em comum com os irmos do que com a equipe de trabalho.
	Temos o mesmo pai.
	Mas no as mesmas lembranas?  incentivou ela, gentil, desejando ver um pouco mais do mundo particular dele. Era isso o que os leitores queriam. E, tinha que admitir, era o que ela queria tambm.  Escolas, frias, alguma coisa?
Ele pensou por um momento.
Talvez um feriado bem distante  concedeu ele.  Lembro-me de um Natal...  Sorriu um pouco, sem perceber.  Meu pai estava em casa para nos ver abrir os presentes na manh de Natal.  Tentou trazer a cena do passado.  Ele estava casado com a me de George, Belinda.
Cheyenne rememorou a composio da famlia dele.
George  o seu irmo mais novo?
.  Ele sorriu.  Voc fez a sua lio de casa.
Imitando uma aluna chamada a fazer um recital, ela citou os demais:
Seus outros irmos so Gary, Gregory e Garth. Por que todos comeam com a letra G?
Ele riu.
G, de grande e gnio. Talvez seja como meu pai veja a si mesmo. De qualquer modo,  a impresso que eu tenho. Realmente, no sei, ns nunca conversamos muito. Meu pai sempre preferiu deixar o dinheiro falar por ele.
Cheyenne percebeu que era embaraoso para Grant falar sobre o assunto e deixou que ele sasse da situao.
Desculpe-me, eu interrompi a sua histria. Voc estava me falando sobre o Natal com seus irmos.
Ele encolheu os ombros.
No h muito para contar, s que ns estvamos juntos, para variar, e reaMente parecamos uma famlia de verdade...
 Sua eterna esperana. A av sempre o achara o mais sensvel, mas depois de crescido ele a convencera a no comentar
o fato com ningum.  Mas meu pai e Belinda tiveram que viajar para as Bahamas naquela tarde e, assim, o feriado durou apenas algumas horas.
E ele ainda se lembrava do episdio, pensou Cheyenne. Isso significava que a famlia era muito importante para ele. Sensibilizada ante a necessidade dele de unio, de segurana, buscou-lhe a mo.
Ele ergueu o olhar, parecendo surpreso, e sorriu.
Temerosa de transmitir algo alm do que pretendera e expor-se demais, Cheyenne retirou a mo.
Ela era uma boa reprter, concluiu Grant. Muito boa. Dragava intimidades sem que ele se desse conta.
	Stan sabia o que estava fazendo quando a enviou.
	Ele gosta de minhas fotografias.
Grant balanou a cabea.

	No estou falando disso. Voc sabe como arrancar informaes das pessoas.
	Eu no estava arrancando  corrigiu ela.  Estava apenas ouvindo.
	Sim  reconheceu ele.  Voc estava ouvindo.
E poucas pessoas ouviam, prestando ateno, hoje em dia. S umas poucas e ele no desejara nenhuma delas em sua cama. No do jeito como desejava Gheyenne.
Seria melhor para os dois se retomassem a entrevista, pensou Cheyenne.
	Muito bem  recomeou.  Ento, da infncia, fora o fato de ser um indivduo, no se lembra de mais nada. Indo direto  idade adulta... por que a sua prpria empresa?
	Porque no gosto de ficar em segundo plano obedecendo ordens.  Grant pensou nas inmeras festas nos primeiros anos. Festas que colocariam a Mardi Gras no chinelo.  Porque queria fazer algo mais do que ver minha pele bronzear ou sentir o meu fgado estragar... e a rea de comunicaes e entretenimento parecia muito interessante e promissora. Mas ela fizera mais lio de casa sobre o O'Hara pblico.
Mas no quando voc entrou na rea  observou.
De fato. No incio, o setor era apenas uma vaga promessa. Entrar naquele negcio era arriscado, mas ele queria o desafio.
	Vamos dizer que herdei de meu pai o instinto para negcios.  Os meio-irmos podiam ter herdado tambm, mas nunca tentaram descobrir, preferindo gastar o tempo em atividades fteis.  Alm disso, o fato de ser um dos primeiros a investir nessa tecnologia me atraiu.
	Voc j disse isso.  Seria uma palavra-chave, imaginou ela, ou obsesso? Ele no parecia o tipo obsessivo, mas sabia que as aparncias enganavam.  Ser o primeiro lhe parece assim to atraente?
Grant pousou a mo sobre a dela e esfregou o polegar na palma, observando, fascinado, as pupilas dela se obscurecerem.
	Minha querida, no faz ideia.  Ele queria ser o primeiro homem dela, apesar do que dissera sobre a responsabilidade que vinha com a honra. Acariciou-a com o olhar. Viu-a enrubescer e ficou encantado.  Tenho um compromisso beneficente esta noite. Por que no vem comigo?
Deliberadamente, embora com algum arrependimento, ela removeu a mo.
	No me diga que Grant O'Hara no tem companhia para o baile.
	No para este. O que me diz?
No havia nada em sua mala, nada em seu guarda-roupa remotamente aceitvel para o tipo de evento que ele frequentava.
	No tenho nada adequado para vestir.
	Lamento, essa no  uma boa desculpa.  Ele tirou a carteira, sacou o carto de crdito e o estendeu.  H muitas butiques no trreo do hotel. Encontre algo de que goste e coloque no meu carto.
Cheyenne recusou.
No aceito presentes de homens.
Ele balanou a cabea.
Ora, voc tem um monte de regras, no? Tudo bem, que tal encarar isso como uma tarefa?  Ele ofereceu o carto novamente, mas ela recusou de novo. Com um suspiro, guardou-o na carteira.  Se quiser, pode usar seu prprio carto.  Teve uma ideia.  Ou, melhor ainda, cobre de Stan, como despesa de trabalho. Isso vai ensin-lo a no jogar pquer comigo.
Cheyenne considerou o convite. Afinal, perdera a oportunidade de tirar fotografias dele na Mardi Gras. Um evento de caridade de gala poderia substituir a perda.
	Onde  esse evento?
	No se preocupe, no vamos voar a lugar algum, embora voc tenha suportado melhor a viagem de volta.
Ele estava certo. E a distrao era a responsvel. Durante o vo, tivera outras coisa em mente. Ele, por exemplo.
No tnhamos uma tempestade como co-piloto  observou ela.
Grant aceitou a desculpa como um cavalheiro.
O evento vai ser no Hotel Belvedere.
Ela capitulou. Por que no? Ele era um acompanhante charmoso e, se queria captar a natureza de Grant, v-lo em seu ambiente, cercado de mulheres, no teria oportunidade melhor.
Posso levar a cmera?
	Pode levar uma equipe inteira, se quiser. Ento, pode ir?
Raios, era para a revista, certo?
	Est bem. A que horas?
Uma batalha, restando outras meia dzia, pensou. Se o sorriso dele era de triunfo, supunha que podia desculp-lo.
s oito. Mandarei a limusine.
Cheyenne olhou-se no espelho.
Voltou-se devagar, apreciando os reflexos prateados sobre o vestido rosa-choque.
O modelo lhe deixava as costas totalmente nuas, enquanto a frente exibia um decote em "V" tentador. Era longo e o tecido se lhe aderia ao corpo como uma segunda pele. Na lateral, abria-se uma fenda que ia at a coxa, deixando a perna esguia  mostra a cada passada.
Sorriu ao mirar-se novamente no espelho. Nada mal, concluiu.
Oh, mame, se visse a sua Annie sem graa agora  murmurou.
Ela sempre fora Annie sem graa para a me. 
Como vamos encontrar um homem para um patinho feio como voc, Annie?  Veja o que encontrei sem nem mesmo procurar, pensou Cheyenne.
Pegou a estola de pele artificial. Pagara tudo do prprio bolso. No seria justo jogar a conta para a revista, mesmo tendo que fazer um rombo em sua caderneta de poupana.
 s vezes, voc  honesta demais para o seu prprio bem  murmurou para o reflexo.
A batida leve na porta fez seu corao se acelerar. Talvez, pensou, sentindo pnico, no fosse uma boa ideia. Talvez no estivesse to bem quanto achava e no se adequaria ao evento de caridade. Talvez...
Talvez devesse parar de pensar como a Annie sem graa. Atravessou o quarto, respirou fundo e girou a maaneta.

CAPITULO DEZ

	Por que no diz alguma coisa? Cheyenne permanecia no lugar sob o escrutnio de Grant somente graas a um extremo autocontrole. De p  porta, ele a olhava pasmo, embasbacado. Desejou fechar-lhe a porta na cara. Aquilo fora um terrvel engano. No nascera para envergar uma roupa daquelas. Era apenas a Annie sem graa de Cheyenne, Wyoming, e sempre seria. Grant pigarreou, ainda ofuscado. Ela estava linda!
	 porque fica difcil falar quando estou diante de uma deusa  explicou, por fim.
Cheyenne olhou-o bem, querendo saber se ele se divertia  sua custa.
	Ento, voc gostou?
	Se no tivesse esse compromisso e voc no tivesse feito essa sua promessa de se guardar, eu lhe mostraria o quanto gostei.
O olhar dele indicava que talvez ainda mostrasse, apesar dos obstculos.
Cheyenne sentiu um arrepio de satisfao na espinha nua. Sorriu, aliviada e pegou a bolsa e a cmera.
	Ento acho que no vou ficar parecendo um polegar com curativo.
	Oh, voc vai se destacar, sim, mas pelo ego, pois vai estar comigo...
O elevador chegou, vazio, e eles entraram. Grant pressionou o boto do andar trreo e mexeu no brinco comprido com prola na ponta que pendia da orelha dela. Sua vontade era retirar a jia com os dentes e, ento, gentilmente, provocar o lbulo com a lngua.
Numa manobra fcil, ele a confinou no canto do cubculo, colocando as mos nas paredes  sua volta. Ela s pde encar-lo, espantada.
	A verdade  que quero levar voc de volta ao quarto do hotel, seu ou meu, ou ficar no elevador, ou em qualquer lugar que voc queira... e fazer amor devagar, durante a noite toda at morrer.
Cheyenne sentia como se ele j tivesse comeado. Era difcil respirar. Como pudera achar-se capaz de lidar com aquele homem?
Mas tentou. Era uma questo de sobrevivncia.
	Eu achava que algum com a sua ambio tivesse planos de mais longo prazo...
Grant sorriu.
	E tenho. Planejo ser ressuscitado e fazer tudo de novo amanh. E no dia seguinte. E depois...
Ela pousou um dedo em seus lbios para cal-lo. Ele beijou o dedo e ela suspirou.
	Parece que vai ficar muito atarefado se eu disser sim...
	E voc vai dizer sim?
	No. Tenho uma reportagem para entregar e voc, uma empresa para dirigir.
	Sabe o que dizem sobre s trabalho e nenhum divertimento?  provocou Grant, suave.
Por que ainda no tinham chegado ao trreo? Como conseguiram fabricar um elevador to lento? Ele aproximou os lbios.
	O que est fazendo?  protestou ela, pnico e prazer misturando-se.
	Cultivando...  Ele sussurrara a palavra junto a sua boca.
Um segundo antes de seus lbios se tocarem, as portas do elevador se abriram. Vrias pessoas que aguardavam para subir olharam-nos surpresas.
Cheyenne sobressaltou-se, envergonhada. J Grant mostrava-se perfeitamente tranquilo e cumprimentou a pequena plateia:
	Boa noite!
Como se ser flagrado em clima romntico fosse uma ocorrncia comum!
Grant tomou Cheyenne pelo brao e escoltou-a para fora do elevador.
O homem era incrvel!
	Muito bem  elogiou Cheyenne.
Ele no se fez de rogado.
	Eu fao o que posso.
Grant OHara fazia mais do que isso. Irradiava charme sem esforo, como se nele isso fosse to natural quanto respirar. Provavelmente, era.
Quase sempre, notou Cheyenne durante o evento, Grant valia-se de seu charme para persuadir as mulheres a contribuir com mais dinheiro do que elas haviam oferecido inicialmente.
Cheyenne descobriu tambm que no se tratava de uma festa beneficente comum. Aps o jantar, haveria um leilo de solteiros e Grant seria o leiloeiro. Foi divertido fotografar as damas da sociedade fazendo lances pelos rapazes mais cobiados de Nova Orleans.
Numa pausa, Grant desceu da plataforma e foi ao encontro de Cheyenne. Com a intimidade de um amigo antigo, passou a mo pela cintura dela, aproximando seus corpos o suficiente para ficarem ambos excitados.
	Divertindo-se?
	Muito  afirmou ela.  Mas voc no me disse que seria um leilo...
Se soubesse disso, Cheyenne no teria se incomodado em se vestir de gala. Optando por um vestido preto simples, economizaria muito dinheiro.
Ele passou a mo pelas costas dela devagar.
	Nem me ocorreu.
Ela duvidava disso. Pegou outro rolo de filme e recarregou a mquina.
	No lhe ocorreu tambm que voc era o leiloeiro?
	Voc me faz esquecer de tudo...  Grant viu Millie, a tesoureira da Fundao para Infncia, acenar-lhe.  Parece que tenho de voltar ao trabalho. Espere por mim.  Deu-lhe uma piscadela antes de deix-la.
	Como se tivesse escolha  ironizou Cheyenne, e tirou outra fotografia.
Grant continuou conduzindo o leilo at que o ltimo solteiro da lista recebeu um lance. O programa todo durara mais de noventa minutos e ele se sentia cansado, mas bem-disposto.
	Obrigado, senhoras, foi um prazer. A fundao para a infncia agradece do fundo do corao rico, mas necessitado.
J descia da plataforma quando algum gritou.
	E voc?
Grant estacou e voltou-se na direo da voz.
	Como?
	E voc?  repetiu a mulher de vestido azul-royal.
Ela trocou olhares com as senhoras na mesa e seguiu-se uma onda de risadas.
Cheyenne baixou a cmera e olhou feio para a mulher. No estava gostando nada da brincadeira.
	Voc no vai ser leiloado?  provocou a mulher.
Grant riu e balanou a cabea.
	No, eu...

	Por que no?  quis saber outra pessoa.   para caridade, certo?
	Sim, mas...  Nunca fora sua inteno ser includo no lote. Por isso mesmo aceitara ser o leiloeiro.
A mulher de azul levantou-se e declarou:
	Meu lance  de trezentos dlares.
Grant olhou para Cheyenne desconsolado. Pela primeira vez, seu charme parecia t-lo abandonado. Ela o fotografou rpido, pois sabia que nunca teria outra oportunidade de captar aquela expresso.
Ento, baixou a cmera e caminhou at o centro do salo em meio aos lances. Sentia-se estranha. Enciumada. Sim, concluiu, espantada. Aquilo definitivamente era cime.
At que no pde mais aguentar. No quando uma morena atraente fez seu lance e Grant sorriu-lhe.
	Setecentos!  Cheyenne ouviu a prpria voz dando um lance.
Grant olhou-a surpreso.
	Parece que a moa com a cmera...
	Oitocentos!  insistiu a morena.
Cheyenne desejou arranhar o rosto da mulher com suas unhas recm-feitas.
Oitocentos e cinquenta.
A morena lanou-lhe o olhar esverdeado.
	Mil dlares.
Cheyenne parou e fez uma rpido clculo mental. Se conseguisse colocar de volta as etiquetas do vestido, poderia bancar um lance maior. Vira a me fazer aquilo mais do que uma vez quando precisava de um vestido novo. Parecia que o truque que a assombrara na juventude ia finalmente ser-lhe til.
	Mil e quinhentos dlares!
A multido engoliu em seco. Grant tambm parecia espantado, notou Cheyenne, com satisfao. Ela ficou ainda mais contente quando viu a morena desistir.
	Parece que eu vou para a moa com a cmera por mil e quinhentos dlares!  informou Grant, divertido.  E assim, conclumos de fato o nosso leilo de hoje. Mais uma vez, obrigado, senhoras, por sua participao e generosidade. Espero que cada uma obtenha o que tinha em mente.  Animado, ele apontou para a senhora sria sentada na ponta do palco.  Por favor, no se esqueam de deixar seus cheques com Millie.
Grant desceu da plataforma e foi direto ao encontro de Cheyenne. Ela parecia inquieta. Remorso de compradora, suspeitava. Passou o brao ao redor de seus ombros.
	Voc no pra de me espantar, Cheyenne.
Ela soltou um suspiro. Acabara de gastar mil e quinhentos dlares para t-lo por uma noite quando j o tinha de graa. Agora, ele se tornaria insuportvel!
	Ento so dois  retrucou.  Acho que me empolguei com os lances.
Mentirosa, pensou Grant, e tocou-lhe o queixo com os ns dos dedos.
	Mesmo?
Ela inclinou a cabea.
	No invente, O'Hara. Pensei apenas em conseguir uma nota de destaque na reportagem da revista.
Grant jamais engoliria aquela justificativa esfarrapada. Nem ela.
	No me importo de dar o meu "mximo" para a revista, se voc no se importa  declarou ele, convencido.  Sou seu, Cheyenne, pelo resto da noite.  Tentava no olhar para os seios arfantes dela, subindo e descendo a cada respirao.  Ns at poderamos discutir esta situao a longo prazo...
Para ele, longo prazo provavelmente queria dizer um final de semana, pensou ela.
	No deixe isso subir  sua cabea, O'Hara  repreendeu Cheyerme, buscando uma maneira graciosa de sair daquela situao.  Eu s...
Ela ficava linda de rostinho corado, pensou ele.
	S o qu?  incentivou.
	S no gostei do olhar daquela mulher.
Na verdade, no gostara da atitude da morena, praticamente se jogando para cima de Grant!
	J estava cansada de v-la antes do leilo...
	Atravs das lentes da cmera  resmungou Cheyenne, sombria.
	Adoro a tecnologia  afirmou ele, sedutor.  No se preocupe, vou cobrir o cheque. No devia estar na lista de prendas, de qualquer forma.
Ela enfiou o talo de cheques de volta ao bolso dele.
	Eu fiz o lance. Eu cobiirei o gasto.
Grant quis discutir com ela, mas desistiu. Ela no aceitaria bem uma interveno.
	Orgulhosa.  Ele assentiu e olhou para ela como quem est refletindo.  Eu gosto de ver orgulho em uma mulher. E sexy. Tudo em voc  sexy, Cheyenne.  Foi baixando a voz at reduzi-la a um sussurro contra o ouvido dela.  E excitante.
To excitante... Por que no voltamos para o hotel e...
Cheyenne no lhe permitiu concluir. No queria sugestes obscurecendo seus pensamentos. Afastou-o com a mo, mantendo a distncia entre ambos constante. Era sua nica esperana.
	Espere um pouco  protestou.  Eu o comprei e posso fazer o que quiser com voc.
Grant sorriu sensual.
	Parece interessante...
 Leve-me para um passeio por Nova Orleans. O pedido surpreendeu-o,
	No era o que eu estava esperando...
	Eu sei.
Grant levou na esportiva. O inesperado tambm tinha suas possibilidades. 
Conforme o pedido, Grant conduziu Cheyenne num belo passeio pela cidade, mostrando-lhe o que a cidade tinha de melhor a oferecer. A expresso "vida noturna" ganhava um novo significado quando aplicada a Nova Orleans, principalmente para algum que crescera nos subrbios de Cheyenne, Wyoming.
	Voc pode se sentir assim com relao a muitas coisas  comentou Grant, a certa altura.
No era preciso ser gnio para deduzir sobre o que ele estava falando.
E, quanto mais tempo passavam juntos, mais ela gostava da ideia.
Cheyenne ainda tinha a msica das ruas ecoando na cabea ao sair do elevador. Cantarolava e movimentava o corpo ao ritmo da batida, tentando agarrar-se aos ltimos resqucios de melodia.
Animado, Grant tomou-lhe a mo e literalmente danou com ela at a porta do quarto. Surpresa, Cheyenne deu uma olhada para ver se havia mais algum no corredor.
Satisfeita por no haver testemunhas, ela se entregou ao prazer de estar nos braos de Grant. Rindo, sentindo-se leve e to feliz quanto uma criana, apoiou-se contra a porta da sute. A noite custara-lhe mil e quinhentos dlares e fora um dinheiro bem gasto.
Esforou-se para recuperar o flego e olhou para o relgio. Passava das quatro da madrugada.
	Acho que valeu a pena o gasto.
Grant tornou-lhe a bolsa e procurou o carto magntico que abria a porta.
	A noite no acabou ainda  anunciou ele, abrindo-lhe passagem.
No quarto, Cheyenne olhou pela janela. Ainda estava escuro, mas a aurora no tardaria.
	Eu diria que a noite j terminou oficialmente h muito tempo. E madrugada.
J estava ficando cansada. Grant percebia por sua voz. Tomou-a nos braos. Ela parecia encaixar-se to bem ali, melhor do que qualquer mulher que j carregara. A noo surpreendia-o cada vez menos.
No precisa ser, se no quisermos.
Cheyenne sentia o corao aos pulos, ameaando pular fora do peito.
	No bebi nada  murmurou.  Ento, por que me sinto bbada? 
Ele riu e respirou junto a seu pescoo.
	Eu estava pensando na mesma coisa.
O desejo cresceu quando ele contornou-lhe o queixo com beijinhos. Ela movimentou a cabea para oferecer a boca.
Grant passou a cobri-la de beijos, no rosto, nos ombros, no pescoo, ao mesmo tempo que a trazia mais para junto de si.
Cheyenne era sua, para seu prazer. No entanto, nunca se sentira to servil, to encantado. Sentiu o prprio corao disparado ao desabotoar a camisa.
Minha.
A palavra solitria ecoava pelo crebro.

CAPITULO ONZE

No podia.
Por tudo o que era sagrado, no podia ir adiante.
Grant recusava-se a tomar aquilo que Cheyenne lhe oferecia de forma to encantadora. No podia justamente por isso. Frustrao e incredulidade mesclaram-se num arroubo ao qual no estava habituado e que sequer conseguia definir.
Esforando-se de forma a causar inveja a qualquer super-heri, Grant pousou a mo sobre a de Cheyenne, impedindo-a de desabotoar-lhe a camisa e acarici-lo no trax.
Chamando a si mesmo de todos os sinnimos de burro, gentilmente afastou a mo delicada.
Atordoada, sentindo o corpo arder como se estivesse em combusto, Cheyenne olhou-o confusa. Mesmo muda, exigia uma explicao.
	Acho que  melhor pararmos por aqui  murmurou Grant, constrangido.
Ela provavelmente nunca saberia, nunca sequer comearia a imaginar o quanto aquilo lhe custava. Mesmo naquele instante, sua masculinidade manifestava-se em protesto.
No recuaria agora, decidiu-se Cheyenne. No tendo chegado at ali.
	Por qu?  questionou.  Estou fazendo algo errado?
Errado? Grant nunca se envolvera em algo que parecesse to certo. Mas no estava pensando em si mesmo naquele momento, mas em Cheyenne e nas consequncias que ela sofreria se se permitisse continuar.
	No, mas eu estou.  Ele queria toc-la, abra-la, mas no podia permitir-se e no podia dizer-lhe isso.  No est certo. Voc no quer isso.
	Sim, eu quero!
To logo desabafou, Cheyenne percebeu que tentava enganar a si mesma. Queria que Grant fizesse sexo com ela como se a amasse. Iria se conformar com isso porque precisava. Precisava sentir o toque dele, precisava ser amada por ele.
Cus, estava a ponto de explodir!
Grant no podia induzi-la a esse erro.
	Voc quer isso agora porque eu passei a noite tentando seduzi-la  analisou.  Porque estou tentando seduzi-la desde que a conheci no restaurante. Mas no por livre escolha.
Cheyenne no entendia aonde ele queria chegar. S sabia que ele a estava recusando. Sentiu algo frio na alma, algo frio e doloroso.
	Voc mudou de ideia?
Ele viu a mgoa nos olhos azuis dela e quis abra-la, afastar a dor. Mas assim anularia o que estava tentando fazer, com tanto custo. Em vez disso, tentou faz-la compreender.
	Oh, eu ainda a quero... demais. Sinto como se estivesse em chamas. Mas no a quero em minha conscincia, Cheyenne.
Voc deixou bem claro o que quer de um relacionamento e eu no lhe estou oferecendo isso.
Grant considerava-a ingnua a ponto de no ter levado isso em considerao? A ponto de acreditar que o encantara, pondo-o de joelhos para pedi-la em casamento? Considerava-a to tola assim?
Ps as mos na cintura e ergueu o queixo.
	Eu sei  afirmou.
Grant avaliou seu semblante, querendo assegurar-se de que ela entendia o que ele estava fazendo por ela, no por si mesmo. Dependendo de sua vontade, poria em prtica todas as fantasias que o perseguiam desde que a vira pela primeira vez.
	Ento, voc entende?
Cheyenne estava trmula.
	No entendo voc. No o entendo em absoluto. Mas acho que entendo minha me um pouco melhor.
Oh, cus, mame, nunca entendi que se sentia to mal. Lamento tanto no ter tentado compreend-la.
Cheyenne passou a mo pelos cabelos e respirou fundo. No adiantou. No conseguia evitar o tremor que a abalava. No estava nervosa pelo que quase fizera, mas pelo que Grant estava fazendo. Ele a reduzira a uma massa de desejo e necessidade, simplesmente para dispens-la em seguida.
Ele corroborava o que ela sempre soubera: teriam apenas um relacionamento passageiro. Ele desejava apenas uma noite de prazer com ela. Ento, iriam se despedir com educao e seguir cada qual seu rumo. Talvez nem se cumprimentassem quando se encontrassem em alguma reunio social.
Para completar, Grant O'Hara devia pensar que tivera uma atitude nobre. Cheyenne sentiu as lgrimas brotarem e esforou-se para ret-las.
	Voc me surpreende, O'Hara  acusou, spera, desejando dar um tom sarcstico  voz. Mas aquilo foi o mximo que conseguiu sem deixar de controlar a emoo.
	Voc?  Ele riu com um trao de amargura.  Eu com certeza surpreendi a mini mesmo.
	Acho que tem mais fora moral do que pensava.  Enxergando alm do ardil, Cheyenne concluiu que ele estava sendo sincero. Deveria ter percebido antes, mas estivera cega devido  prpria fraqueza. E ao charme dele.  Ou isso, ou voc no me quer tanto quanto diz.
Grant ficou visivelmente irritado. Estava dando o mximo de si para tomar a atitude correta, ou seja, deix-la ir. Se iam discutir sobre isso, teria que demonstrar "quo pouco" a queria!
	No me provoque, moa. Se h algo que no fao  mentir. No digo nada porque  conveniente, ou porque o outro quer ouvir, e sim, s o que me convm.  vido por toc-la, Grant recuou de costas para a porta.  Agora, vou sair daqui antes que meus ancestrais comecem a se revirar nos tmulos e venham aqui me chutar para a direo certa.
Cheyenne sentia o corao despedaado.
	E qual seria essa direo?
Grant olhou para a cama no quarto.
	Acho que j sabe a resposta.
Fechando a porta, saiu apressado antes que mudasse de ideia. Cheyenne ficou parada, os braos pendendo nas laterais, olhando a porta por um bom tempo. Estava entorpecida, atnita demais para se movimentar, e completamente confusa sobre o que pensar ou o que sentir.
Alvio no parecia ser uma reao apropriada. Raiva, sim, mas de que, ou de quem?
S o que sabia era que estava sozinha.
Era um idiota.
Um idiota total, completo, bem-acabado, de padro internacional. A mulher mais bonita que j vira oferecera-se em bandeja de prata e ele a rejeitara. No uma mulher qualquer, uma concha vazia, mas uma mulher inteligente, com contedo e senso de humor.
Grant caminhou apressado at o elevador e apertou o boto.
No quarto, aps passar uma hora tentando se convencer de que tomara uma atitude nobre e louvvel, desistiu do argumento. Procuraria Cheyenne, pronto para voltar atrs, para humilhar-se, talvez at para implorar. Alegaria estar com insanidade temporria ao recusar-se a fazer amor com ela pouco antes.
E ficaria maluco se no conseguisse convenc-la de como estivera errado. De que tinham todo o direito de deleitar-se com o prazer que se lhes oferecia.
Grant balanou a cabea ante seu prprio ato de total estupidez. As pessoas passavam a vida toda sem encontrar aquele tipo de eletricidade especial com que eles haviam deparado totalmente por acaso. Mas ele dera as costas ao fenmeno, achando que era a atitude mais justa.
No era justa, era estpida. Estpida, estpida, estpida.
Grant bateu na porta de Cheyenne, ensaiando mentalmente o que iria dizer. Sentia-se prestes a entrar numa mina de carvo sem nenhuma iluminao. Mas j estava ali e no voltaria. No desta vez.
Por que ela no respondia? Estaria dormindo? Como conseguira, quando ele nem se deitara na cama, sabendo que era intil. Sentia-se inquieto, no sonolento. Bateu na porta com mais energia.
 Cheyenne, sou eu, abra.
No entendia. Por que ela no atendia? Nem que fosse para evitar que ele acordasse os outros hspedes?
Talvez algo estivesse errado.
Talvez...
Parou de fazer suposies e desceu  recepo. Se algo estivesse errado, precisaria da chave da sute.
O saguo estava quase deserto quando saiu do elevador. Rapidamente, dirigiu-se ao balco. O recepcionista jovem ergueu o olhar sonolento.
	Acho que a moa da sute 2111 pode estar doente. Ela no est respondendo  porta e...
O recepcionista abafou um bocejo. Comeara a trabalhar havia menos de uma hora e esse era o segundo hspede a provocar uma agitao. Por que aquelas pessoas no iam para a cama, onde ele mesmo gostaria de estar?
Chamou uma tela no computador apenas para certificar-se. Sim, l estava, branco no azul.
	A hspede da sute 2111 no est respondendo porque j deixou o hotel, senhor.
	Deixou o hotel?  repetiu Grant, incrdulo.  Mas  impossvel...  Devia haver algum engano.  Falei com ela h pouco mais de uma hora...
O recepcionista no era do tipo que gostava de discutir. Percebendo que Grant precisava ver a informao, girou o monitor de vdeo de frente para ele.
	Veja o senhor mesmo. Ela deixou o hotel h quarenta e cinco minutos.
Grant olhou para a linha que o recepcionista indicava e sentiu o crebro recusando-se a processar a informao. Mas tinha que compreender. Cheyenne deixara o hotel. Simplesmente. Sem uma palavra, sem um adeus. Nada.
Recomps-se, sabendo que devia estar parecendo maluco.
	Ela disse para onde estava indo?
O recepcionista consultou a tela.
	No, senhor.
Grant assentiu. No se lembrava de ter dado a volta e caminhado ao elevador. Mas devia ter feito isso, pois viu-se diante das portas de ao inoxidvel.
Seu raciocnio tomava diferentes direes sem chegar a concluso alguma. Pensou em chamar Riley para que fosse peg-lo com a limusine. Queria fazer alguma coisa, ir atrs dela. Mas por onde comearia? Teria ela ido ao aeroporto e tomado o primeiro vo para Los Angeles? Se fosse assim, em que terminal, por qual companhia area?
Mas ela detestava voar, ento, talvez tivesse ido de trem, ou de nibus.
Havia possibilidades demais e tempo de menos para rastre-las. A probabilidade era de no encontr-la ainda em Nova Orleans.
Talvez ela nem estivesse indo para Los Angeles.
Soltou um suspiro. Sentia vontade de socar alguma coisa, de sentir os ossos batendo em algo slido.
Entrou no elevador balanando a cabea. A fria tomava conta de seu ser. O que viria em seguida? Nunca sentira raiva igual antes, nunca quisera praticar uma agresso fsica.
As portas do elevador abriram-se, colocando-o frente a frente com seu inferno pessoal enquanto caminhava pelo corredor.
Talvez fosse melhor assim, convenceu-se. Talvez o destino atuasse evitando que cometesse um erro estpido. J percebera que Cheyenne Tarantino no era como as outras mulheres que conhecera. Tinha o poder de pression-lo por dentro, de infiltrar-se em sua pele de forma a compromet-lo pelo resto da vida.
Bastava ver o que a mulher j lhe fizera e nem sequer haviam dormido juntos.
Estava neutralizado. Era melhor no v-la novamente, no fazer sexo com ela e talvez se envolver em algo...
Algo o qu?, censurou-se. Algo que lhe desse prazer, algo que o fizesse feliz?
De que estava tentando se salvar?
Grant praguejou e entrou na sute sentindo um jogo de pin-gue-pongue em andamento dentro de sua cabea.
Tempo. Precisava de tempo para desanuviar os pensamentos. Tempo para pensar como um ser humano e no como uma forma materializada de hormnio. Bateu a porta. Hormnios, nada mais que hormnios. Quanto mais cedo enfiasse isso na cabea, mais cedo superaria o episdio todo e retomaria seu caminho.
Nenhuma mulher iria bagunar sua vida, no como haviam bagunado a de seu pai. No, era inteligente demais para permitir que isso acontecesse.
Cheyenne apertou o cinto de segurana e pousou as mos no colo, os dedos entrecruzados como se tivessem vontade prpria.
No tinha certeza de poder perdo-lo, pensou, olhando para a frente enquanto o avio taxiava pela pista. Para dizer a verdade, tinha certeza. Nunca perdoaria Grant O'Hara pelo que ele fizera.
Ele se divertira  sua custa. Ele a ludibriara. Deixara-a to confusa de desejo a ponto de querer fazer amor com ele, a ponto de deixar para trs suas convices. Ento, rejeitara-a com uma desculpa esfarrapada.
Ele no a queria em sua conscincia.
Ha!
Homens como Grant O'Hara no tinham conscincia. Ele elaborara toda aquela encenao s para ver se a conquistava. Alcanado o objetivo, no se interessara nem em terminar o servio.
Pois ela se vingaria, pensou, enquanto olhava pela janela e via o cho se afastar. Atravs do artigo que acompanharia as fotografias na Style. Isso certamente o atingiria em seu meio.
Escolheria as piores fotos, aquelas que mostrassem a natureza dbia dele. Ento, os leitores veriam quo poderoso era Grant O'Hara.
As palavras do texto ricocheteavam em sua mente.
Descontrolada, Cheyenne levou as mos ao rosto. Oh, o que estava fazendo? No podia deixar sentimentos pessoais interferirem em seu trabalho. Tinha orgulho de sua fama de sempre expor a verdade.
Enxugou as lgrimas. Nem percebera que estava chorando. Afundou-se na poltrona, mais miservel do que nunca. Nem percebeu a aeromoa falando at que sentiu um toque no ombro.
Cheyenne suprimiu um soluo e endireitou-se na poltrona.
	Voc est bem?  repetiu a aeromoa, parecendo preocupada.  Posso ajud-la?
No, eu no estou bem, pensou. Talvez jamais volte a ficar bem. Envergonhada, Cheyenne contraiu os lbios e balanou a cabea.
	No, est tudo bem. S fico nervosa em voar  murmurou, e ento percebeu que no enjoara durante a decolagem.
	A meteorologia prev tempo bom at Los Angeles  informou a aeromoa, gentil.  No h com que se preocupar.
	Obrigada.  Ciente das lgrimas no rosto, Cheyenne voltou-se para a janela e pensou em algum que no via h muito tempo. Chamou a aeromoa.  Espere. Tem telefone no avio?
A mulher assentiu e indicou a sala de descanso na traseira do avio. Cheyenne foi at l, sentou-se e refletiu bastante antes de discar os nmeros. Prendeu a respirao e aguardou a ligao se completar.
	Al?
	Al, mame? Mame,  Cheyenne.  Ela soltou o ar dos pulmes.  Mame, preciso conversar com voc.

CAPITULO DOZE

Stan Keller entrou ruidosamente na saleta que Cheyenne ocupava na redao da revista. J lhe oferecera uma sala maior, com porta e janela, mas ela se dissera contente com o cubculo. Considerando que todos estavam sempre querendo mais espao, Cheyenne era mesmo uma pessoa muito especial, alm de excelente profissional.
Por isso, mandara-a fazer a reportagem com O'Hara; em primeiro lugar. O homem era inteligente o bastante para constatar as qualidades dela e, a partir da...
Cheyenne estava diante do computador, mas a fotografia que estivera editando j desaparecera havia muito da tela, dando lugar a uma animao de espera.
Estava no mundo da lua, concluiu Stan, balanando a cabea. Desde que voltara da entrevista com Grant na semana anterior, ela andava com a cabea nas nuvens.
Exatamente o que dera errado? No costumava manipular pessoas, mas, quando o fazia, esperava resultados. Positivos.
Pigarreou para chamar a ateno. Da ltima vez, ela levara um susto suficiente para quebrar o recorde de salto sentada.
Piscando, Cheyenne olhou por sobre o ombro. Parecia estar saindo de um transe.
	Oh, Stan  murmurou ela.  Eu estava s... trabalhando.  Olhando para a tela do computador, mexeu no mouse.
	 Estou vendo.  Stan apoiou o corpo troncudo num armrio e cruzou os braos enquanto estudava-a. Havia algo muito errado com sua reprter favorita.  Tarantino, no costumo me meter na vida dos outros, porque no gosto que se metam em minha vida, mas... o que est acontecendo com voc?
E ela achando que conseguia enganar a todo mundo. Maldito O'Hara. Por que no podia simplesmente esquec-lo e continuar com sua vida, como se nada tivesse acontecido?
Porque tinha acontecido. E, gostasse ou no, vivia temporariamente sem o corao enquanto ele estava em reforma. Alis, quanto tempo levava para se montar um quebra-cabea de mil peas?
	Algo errado com o meu trabalho?
	O seu trabalho est timo, nota dez como sempre. Voc, entretanto, parece que est em um funeral!
Stan estava preocupado, no apenas por ter sido o responsvel por envi-la a Grant O'Hara, mas tambm por que gostava de Cheyenne e no queria v-la daquele jeito.
Ela encolheu os ombros.
	Estou meio resfriada  declarou, e tossiu para provar.
Ele olhou-a mais atentamente.
	H mais de uma semana?
	O tempo anda ruim, ora.  Cheyenne esforou-se para no perder o controle, andava meio sem pacincia com as pessoas.  Oua, se tem alguma reclamao quanto ao meu trabalho, diga-me. Se  sobre mim a nvel pessoal, no se incomode.
Stan parecia surpreso.
	Tarantino, no sabe que no pode falar com a sua chefia desse jeito?
	Desculpe-me.  que esta no tem sido uma semana muito boa para mim...
	Por qu?  insistiu ele.  Converse comigo. A minha melhor fotgrafa parece estar se desintegrando e eu tenho o direito de saber por qu. Ns temos um passado, Tarantino. Eu lhe dei o seu primeiro emprego de verdade.
	Voc no vai desistir, no ?
Ele sorriu satisfeito.
	Agora que estamos nos entendendo, pode comear a falar. O que a est perturbando?
Cheyenne suspirou novamente. Stan era mais do que seu editor, mais do que a chefia. De certa forma, podia-se dizer que era seu amigo.
	No espero que entenda, mas, por toda a minha vida, tentei no ser como minha me. Tentei no fazer o que ela fazia porque no queria acabar como ela.  Esboou um sorriso triste que o comoveu.  Mesmo assim, acabei no mesmo lugar. Stan esforava-se para entender o que ela dizia.
	E esse lugar seria...
	Abatida por um homem.  Grant no a quisera tanto. No se interessara nem no presente perfeito que ela lhe oferecera: sua virgindade.  E isso di... sinto meu corao em pedaos.
Talvez no estivessem conversando sobre O'Hara. Grant tinha sensibilidade. Ele teria gostado de Cheyenne pelo que ela era.
	Que cafajeste a deixou assim?
Stan era amigo de O'Hara e Cheyenne no queria ficar entre eles. Aquilo era assunto seu, pensou, friamente.
	 complicado demais para explicar.  Salvou a fotografia que estivera editando e desligou o computador.  Vou sair de frias esta tarde.
	No deveria discutir isso comigo antes?
Sim, deveria, mas ela decidira isso na noite anterior.
	Estou discutindo agora. Vou a San Francisco ver minha me.
	Isso  novidade.
	Sim, bem, tenho que reparar alguns equvocos. Conversei com ela na semana passada e descobri que podemos ser amigas. Pelo menos, pretendo dar um passo nessa direo. O trabalho est em dia e eu volto na outra segunda-feira.
Stan no estava preocupado com o trabalho na redao e, sim, com a cabea de Cheyenne.
	Isso no tem a ver com o fato de ter sido enganada por um homem, tem?
	Talvez. Portanto, se no se importa, acho que...
	Estou interrompendo algo?
Cheyenne voltou-se como uma marionete e arregalou os olhos, numa reao que proveu muitas respostas a Stan.
O editor retirou-se sem dizer nada, pois achava que Cheyenne e o recm-chegado poderiam resolver a situao sozinhos.
Grant nem olhou para Stan saindo do cubculo. Eram amigos e poderiam se falar depois. Sua ateno estava totalmente voltada para Cheyenne. Mesmo cansada, ela parecia mais bonita do que se lembrava. Queria tom-la nos braos, senti-la, certificar-se de que era mesmo Cheyenne. Franziu o cenho ao ver um escriturrio passar apressado junto  entrada.
	Por que no tem porta aqui?
	No sei, talvez pelo mesmo motivo de voc no ter educao  rebateu ela. O que ele estava fazendo ali? Por que simplesmente no podia deix-la em paz?  Nunca pensei nisso antes.
	E o que isso quer dizer?
	Descubra voc mesmo. Vou pegar um avio.
	Pensei que detestasse voar.
Ela ergueu o queixo, pronta para degladiar-se com ele por alguns rounds.
	Decidi no deixar o medo me controlar.
	Eu tambm.
Cheyenne no sabia do que ele estava falando. Tudo o que sabia era que queria sair dali, sair de perto de Grant. A ferida nem comeara a cicatrizar e aquele encontro s servia para abri-la de novo.
Quando ela tentou ultrapass-la, ele a segurou pelo pulso.
	Temos um assunto inacabado.
Oh, no, ele no ia comear com aquilo novamente!
	Acho que est tudo acabado entre ns.
	H aquela pequena pendncia quanto ao nosso casamento 	ponderou Grant.
Plida, Cheyenne desistiu da atitude defensiva. Grant soltou-lhe o pulso.
Ela se esquecera do detalhe. Claro, era por isso que ele estava ali. No para v-la, mas para se livrar do inconveniente.
	Tudo bem, me d os papis, eu os assinarei agora mesmo 	declarou, e estendeu a mo.
Mas ele balanou a cabea.
	No trouxe nada comigo.
Ela no estava entendendo. Se ele queria que ela assinasse os papis, por que no os levara?
	Bem, e onde esto?
	Em nenhum lugar. Eu no providenciei nada ainda.
	Voc no...  Cheyemie encarou-o, incrdula. No podia ser. Podia?  Ns ainda estamos casados?
Grant assentiu e aproveitou para introduzir seu argumento.
A julgar pela sua atitude, voc provavelmente vai me dar muito prejuzo antes de concordar com a anulao.
Dinheiro. Ele estava pensando em dinheiro!
	No quero prejudic-lo, 0'Hara, a no ser, talvez, atropelando-o de caminho. O que quer de mim, exatamente?
	O de sempre. Uma mulher na sua posio pode tentar me fazer pagar pelo aborrecimento.
Ela ficou zangada.
	Pode ficar com o seu dinheiro. S o que quero  a anulao.
Ela estava falando srio, avaliou Grant. Talvez no fosse justo, mas ele tinha que saber, tinha que ter certeza de que no estava cego de paixo. Tinha que saber se ela era mesmo quem ele achava que era.
	No quer dinheiro? Nenhuma compensao pela sua dor e sofrimento?
Ela estreitou o olhar.
	Voc no conseguiria sequer comear a pagar pela minha dor e sofrimento.
Grant sorriu aliviado, confiante e inapelavelmente sensual.
	Faa o desafio.
Cheyenne comeava a se descontrolar. Por que ele no podia simplesmente voltar de onde viera?
	O que quer de mim, O'Hara?^
	No muito.  Ele no podia mais resistir e tocou-a no rosto. Logo viu o desejo surgir nos olhos azuis.  Tudo. Pelo resto de sua vida.
	O qu?
Grant olhou para o vazio, tentando encontrar as palavras certas, mas elas no surgiram. Pois falaria com o corao, esperando que ela compreendesse.
	Apesar das fofocas nas revistas, nunca pedi nenhuma mulher em casamento antes. No sei bem como se faz isso.
Cheyenne fitava Grant temerosa em acreditar no que estava ouvindo.
	E por que voc ia querer saber como se faz isso?
Ele passou uma mo ao redor da cintura dela.
	Porque quero pedi-la em casamento.
Ela sentiu o corao falhar uma batida, mas quis ouvir mais. O que acontecera para ele aparecer ali daquele jeito?
Por qu?
Grant fez o que qualquer bom jogador faria. Se ela quisesse tudo, ele lhe daria tudo. Seus motivos, sua auto-estima, tudo.
	Porque no consigo pensar em mais nada que no seja voc. Porque no consigo me concentrar em nada desde que voc partiu. Porque quero estar com voc mais do que qualquer outra coisa no mundo.  Ele a fitou ternamente.  Porque eu te amo.
Cheyenne mordeu o lbio, de repente, com medo.
	Como assim?
	Amando, ora. E no pense que no relutei. Mas voc  diferente...
	S porque ningum nunca lhe disse no antes.

	Voc no disse no, no no final Voc estava dizendo sim.
Ela endureceu a expresso.
	E voc me deu as costas.
	Sim, dei.  esse o ponto. Acha que j desprezei esse tipo de incentivo antes?
Grant tinha que convenc-la do quanto aquilo lhe custara. E por que lhe custara. Por que fizera aquilo em primeiro lugar. Por ela. S por ela.
	Provavelmente, no  sussurrou ela.
	Isso mesmo, nunca. Ento, por que acha que no fui adiante daquela vez?
Cheyenne ergueu o olhar, magoada e acusadora.
	Voc no me quis.
Como ela podia pensar assim?, desesperou-se ele.
	Eu a quis demais. Mas estava assustado.  Ora, faria Cheyenne entender, faria com que acreditasse nele.  Eu lhe disse que amava as mulheres. Amo. Mas nunca amei uma mulher antes. Nunca tive nenhuma mulher no pensamento a ponto de embaralhar qualquer outro raciocnio. Nunca tive nenhuma mulher no pensamento a ponto de ficar sem ar  simples meno de seu nome. Nunca quis nenhuma mulher mais do que o amanh.
	E eu sou essa mulher?  concluiu Cheyenne, querendo acreditar desesperadamente, mas ao mesmo tempo temerosa.
	Voc  essa mulher  repetiu ele.
No fazia sentido a Cheyenne.
	Ento, por que levou todo esse tempo para vir at aqui?
	Estava me preservando. Pensei que fosse apenas insanidade temporria. Paixo. Algo que pudesse controlar. S piorou. Estou pedindo-lhe para que se case comigo novamente. Desta vez, do jeito tradicional, exatamente como no sonho. Como em nosso sonho  corrigiu-se.
Ele avaliou o semblante dela  procura de uma resposta. Teria sido confiante demais? Esperanoso demais?
	A menos que no sinta o mesmo...
O grande bobalho. Ele no enxergaria o nariz na frente do espelho, pensou Cheyenne.
	Por que acha que lhe disse sim no quarto de hotel? Porque estava curiosa?  Ela lanou os braos ao redor do pescoo dele. Grant a queria, de verdade. Para sempre. Exatamente como sonhara.  Pouco provvel. Quando voc se afastou, pensei que fosse morrer. Entendi ento o que minha me deve ter sentido anos atrs.
Ela fez uma pausa, reflexiva.
	Algo bom surgiu disso tudo. Aproximei-me de minha me pela primeira vez. Eu ia visit-la hoje.  Ainda queria ir a San Francisco, com Grant a seu lado.  Vai comigo?
	Gostaria muito. Mas serei apresentado corno futuro genro ou como amigo?
Ela o olhou carinhosa.
	Como amigo.  Ento, alargou o sorriso, incapaz de manter-se sria.  E como futuro genro. Eu te amo, Grant O'Hara. Muito, muito, muito. E sim, quero me casar com voc. Tantas vezes quantas forem necessrias para fazer valer.
	Quero direitos exclusivos sobre as fotos  adiantou-se Stan, revelando-se, pois estivera assistindo a tudo escondido.
O editor viu que falava com as paredes, Grant e Cheyenne estavam em um mundo particular, selando o compromisso da nica forma que interessava.
Stan suspirou e afastou-se. Calculou que ficariam se beijando por um longo tempo e ele tinha uma revista para administrar. Pegaria os dois mais tarde. Nesse nterim, assobiou a melodia "Os dias felizes voltaram".

EPLOGO

No foi fcil esperar. No foi fcil no fazer amor com ele, ainda mais sabendo que ele a amava e queria casar-se com ela. Que, na verdade, estava casado com ela, graas a um senhor baixinho e a uma atitude descuidada na festa de Mardi Gras.
Mas, de algum modo, Cheyenne conseguiu se preservar.
No, corrigiu-se ela ao receber das mos da me o buque de flores. Grant se preservara. Ele se contivera e no usara a vantagem que tinha, dizendo que o respeito e amor que sentia por ela eram suficientes para nutri-lo at que tivessem seu casamento tradicional.
Ento, ele movera cus e mares para apressar a papelada para a cerimnia.
Cheyenne sorriu para si mesma. E conseguira apressar tudo mesmo.
Por isso, estava ali, na igreja cheia de familiares e amigos que os queriam bem.
	Voc est linda  sussurrou Anita Tarantino, recolhendo as lgrimas que brotavam dos olhos.
O vestido era mesmo lindo, pensou Cheyenne. Grant revirara o Estado at encontrar o modelo que ela envergara no sonho. O vestido do sonho deles.
	Claro que ela est linda  afirmou Stan.  Ela puxou a voc. Est tirando fotos, Malone?  Olhou por sobre o ombro para certificar-se de que o fotgrafo tirasse uma chapa de me e filha.
	Estou, Stan.
	E agora, que tal uma com voc?  provocou Cheyenne, agarrando o brao do chefe, muito elegante de smoking.  De outra forma, ningum vai acreditar que consegui tirar aquele seu uniforme de trabalho.  Riu da expresso amuada dele.  Diga "x"!
	Boba  disse Stan, e ento Malone bateu a foto.  Agora, v para o fundo da igreja, quero fotos da noiva entrando pelo corredor.
Stan ofereceu o brao a Anita.
	Eu a levarei at o seu lugar. Voc tem uma filha e tanto, Anita. Poucas mulheres podem ajudar a polcia de Nova Orleans a desvendar um crime e prender quatro assassinos.  Despediu-se de Cheyenne.  Vejo voc no altar.
Ela balanou a cabea, divertida e enternecida com a cena que presenciara. Stan Keller estava dando ateno  me. E Anita iluminara-se como uma rvore de Natal. Bem, as surpresas nunca deixariam de surgir?
Sim, Stan, foi mesmo um ms incrvel, pensou Cheyenne, enquanto as damas de honra a precediam sobre o tapete vermelho.
Os primeiros acordes da marcha nupcial ecoaram pungentes. Estava acontecendo, pensou, estava realmente acontecendo! Exatamente como no sonho.
Respirando fundo, iniciou a caminhada na direo do altar, ao encontro do homem que amava de todo o corao e para o resto da vida. Sabia que o que Grant lhe sussurrara ao ouvido na noite anterior era verdade.
O melhor ainda estava por vir.

FIM

 



